Três Retratos: Qual deles é o Meu? (J.C. Ryle)

tres retratos capaUm tratado avulso publicado por volta de 1881[1]

pela Drummond Tract Deport, de

JOHN CHARLES RYLE

1° Bispo da Diocese da Igreja da Inglaterra em Liverpool

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“E, dizendo ele isto em sua defesa, disse Festo em alta voz: Estás louco, Paulo; as muitas letras te fazem delirar. Mas ele disse: Não deliro, ó potentíssimo Festo; antes digo palavras de verdade e de um são juízo. Porque o rei, diante de quem também falo com ousadia, sabe estas coisas, pois não creio que nada disto lhe é oculto; porque isto não se fez em qualquer canto.  Crês tu nos profetas, é rei Agripa? Bem sei que crês. E disse Agripa a Paulo: Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão! E disse Paulo: Prouvera a Deus que, ou por pouco ou por muito, não somente tu, mas também todos quantos hoje me estão ouvindo, se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias.” Atos 26: 24-29

LEITOR,

Há uma coleção de retratos em Londres intitulada de Galeria Nacional de Retratos. Ela contém as imagens de quase todos os grandes homens que marcaram a história inglesa. Vale, realmente, a pena ver. Mas eu duvido que ela contenha três retratos tão merecedores de um estudo mais cuidadoso do que os três que serão por mim apresentados neste artigo.

Uma característica notável da Bíblia é a rica variedade de seus conteúdos. Este grandioso Livro antigo, que por dezoito séculos tem deixado perplexos os ataques da ética hostil, não é apenas um depósito de doutrina, preceito, história, poesia e profecia. O Espírito Santo também nos legou uma série de retratos fidedignos da natureza humana, em todos os seus vários aspectos, que merecem nosso exame meticuloso. Quem não sabe que frequentemente aprendemos mais de padrões e exemplos do que de afirmações abstratas?

Leitor, este trecho bem conhecido das Escrituras à sua frente fornece uma ilustração admirável do significado das minhas palavras. Este trecho conclui o capítulo em que o apóstolo Paulo faz uma defesa de si mesmo perante o governador romano Festo e o rei judeu Agripa. Três retratos de três homens muito diferentes pendem diante de nós. Eles são tipos de três classes de homens que podem ser vistas mesmo nos nossos dias. Sua geração nunca cessou. Apesar de modas que se alteram, de descobertas científicas, e de reformas políticas, o âmago do coração do homem é, em todas as eras, sempre o mesmo. Vamos nos postar frente a estes três retratos, assim como observaríamos uma pintura de um Gainsborough, de um Reynolds, ou de um Romney[2], e vejamos o que podemos aprender deles.

  1.   Observemos, primeiramente, a Festo, o governador romano. Este é o homem que interrompe, de modo abrupto, a fala de Paulo, exclamando, “Estás louco, Paulo; as muitas letras te fazem delirar.”

Festo, sem dúvida, era um pagão, ignorante de qualquer religião, a não ser do culto idólatra do templo, que se espalhara, na época dos apóstolos, pelo mundo civilizado.

Considerando a linguagem com que se dirigiu a Agripa em um capítulo precedente, ele parece ter sido profundamente ignorante tanto em relação ao judaísmo quanto ao cristianismo.  Ele mencionou “questões acerca da sua superstição, e de um tal Jesus, morto, que Paulo afirmava viver.” (Atos 25:19) Com grande probabilidade, como muitos romanos orgulhosos na era do declínio do Império Romano, ele julgava todas as religiões — em secreto desprezo — como todas igualmente falsas, ou igualmente verdadeiras, e todas semelhantemente indignas de serem do conhecimento de um grande homem. Quanto ao fato de um judeu falar de mostrar a “luz para os gentios”, a própria ideia era ridícula!  Manter-se com o mundo, ter o favor dos homens, não se importar com nada senão as coisas visíveis, agradar ao “meu senhor” Augusto; esta era, provavelmente, toda a religião de Pórcio Festo.

Agora, leitor, haverá muitos entre nós semelhantes a Festo? Sim!  Receio que existam dezenas de milhares. Eles podem ser encontrados em todas as categorias e classes sociais. Caminham por nossas ruas. Viajam conosco em vagões de trem. Encontram-se conosco nas interlocuções diárias do mundo. Preenchem as variadas relações da vida respeitavelmente. São, com frequência, bons homens de negócio e eminentes nas profissões que escolheram. Desempenham os variados deveres de seus cargos com mérito, e deixam uma boa reputação quando seus lugares estão vazios. Contudo, assim como Festo, não têm religião alguma!

Estes são os que parecem viver como se não tivessem almas. De janeiro a dezembro, não parecem nem pensar, nem sentir, nem ver, tampouco saber nada acerca da vida porvir. Não faz parte de seus esquemas, planos e cálculos.  Vivem como se não tivessem nada a zelar senão pelo corpo, nada a fazer senão comer, beber, dormir, vestir-se e ganhar dinheiro e nenhum outro mundo a prover senão o mundo que vemos com nossos olhos.

Estes são os que nunca, ou raramente, se utilizam de qualquer meio da graça, seja público ou em privado. Orar, ler a Bíblia, estar em comunhão particular com Deus são coisas que desprezam e das quais se abstêm. Elas podem ser muito boas para os idosos, os enfermos, os moribundos, os clérigos, os monges, as freiras; mas não para eles! Se vão a algum lugar de adoração, é apenas por uma questão de formalidade, para parecerem respeitáveis; e, muito costumeiramente, nem mesmo frequentam tais lugares, exceto por ocasião de alguma grande cerimônia pública, ou em um casamento, ou um funeral.

Estes são os que professam sua incapacidade de compreender qualquer coisa como zelo ou seriedade acerca da religião. Consideram as sociedades, as instituições, a literatura, os esforços evangelísticos dos cristãos, em casa ou no exterior, com sublime desprezo. Sua máxima é deixar todo mundo em paz. As afirmações comparativas da Igreja e da Dissidência, o conflito entre grupos dentro de nossa esfera, os debates de assembleias, congressos, conferências diocesanas, são todas semelhantemente matérias de indiferença para eles. Olham, de longe, friamente para tais questões, como o filósofo descrito pelo poeta latino Lucrécio, e consideram-nas como lutas infantis de pessoas fracas, indignas de serem notadas por uma mente culta. E se tais assuntos são trazidos à tona em sua presença, rechaçam-nos com alguma observação satírica, ou com algum frequente ditado inteligente de ceticismo.

Alguém negará que há multidões de pessoas ao nosso redor tais como tentei descrever — pessoas gentis talvez, pessoas morais, pessoas de boa índole, de fácil trato a menos que você aborde o assunto de religião? É impossível negar. Seu nome é “legião”, porque são muitos. A tendência destes últimos dias de fazer do intelecto um ídolo; o desejo de ser independente e de pensar por si mesmo; a disposição de adorar a opinião pessoal, de exaltar nossa própria opinião isolada, e de considerar mais refinado e inteligente estar errado na companhia de poucos do que estar certo na companhia da massa, tudo isso contribui para engrossar as fileiras dos seguidores de Festo. Receio que ele seja o tipo de uma classe extensa.

Tais pessoas são de uma visão melancólica. Frequentemente, elas recordam-me alguma grande ruína, como Melrose ou Bolton Abbey[3], onde há vestígios suficientes de arcos magníficos, de colunas, de torres e de janelas ornamentadas para mostrar o que o edifício já foi uma vez, e o que poderia ter sido agora, se Deus não o tivesse deixado. Mas agora tudo é frio, silencioso e sombrio, e sugere decadência, porque o senhor da casa, o Senhor da vida, não está lá. É exatamente assim com muitos dos seguidores de Festo. Com frequência, você sente ao observar sua capacidade intelectual, seu dom de eloquência, seu gosto, sua energia de caráter, “o que os homens como esses poderiam ser se Deus tivesse Seu lugar legítimo em suas almas!” Contudo, sem Deus tudo está errado. Ai do poder esmagador da descrença e do orgulho, quando têm pleno domínio de um homem e reinam sobre ele descontroladamente! Não é à toa que a Bíblia descreve o homem não convertido como “cego, dormindo, fora de si e morto.”

Será que Festo estaria lendo este artigo hoje? Receio que não!  Livros e tratados religiosos, como também cultos dominicais e sermões, não fazem parte de seu estilo. Aos domingos, Festo provavelmente lê o jornal, ou examina suas contas terrenas, ou visita seus amigos, ou viaja, e deseja, secretamente, que os domingos ingleses fossem mais semelhantes aos domingos no restante da Europa, e que os teatros e museus estivessem abertos. Nos dias úteis, Festo está constantemente ocupado com negócios, ou política, ou divertimentos, ou em matar o tempo com atividades triviais da sociedade moderna; e vive como uma borboleta, tão impensadamente como se não houvesse nada como morte, ou julgamento, ou eternidade.  Ah, não: Festo não é o homem que leria este artigo.

Todavia, um homem como Festo está em uma condição de desesperança e além do alcance da misericórdia? Certamente que não! Dou graças a Deus, porque ele não está; ele ainda tem uma consciência no fundo de seu ânimo, que, embora bastante cauterizada, não está ainda totalmente morta — uma consciência que, assim como o grande sino da Catedral de St. Paul à meia-noite, quando o ruído da agitação da cidade cessa, por vezes, faz-se ouvir. Tal como Felix, Herodes, Acabe e Faraó, os seguidores de Festo têm seus momentos de visitação e, diferentemente destes últimos, às vezes, eles acordam antes que seja tarde demais, e tornam-se homens diferentes. Há épocas em suas vidas em que são movidos pela introspecção, e sentem “os poderes do mundo vindouro,” e descobrem que o homem mortal não pode viver sem Deus. Enfermidade, solidão, decepções, perdas de dinheiro e mortes de pessoas amadas podem, às vezes, fazer o mais orgulhoso dos corações curvar-se, e confessar que “o gafanhoto é um peso”[4]. Manassés não é o único que “em tempos de angústia“[5] voltou-se a Deus, e começou a orar. Sim, leitor, há muito tempo considero que nunca devemos nos desesperançar a respeito de ninguém. A era dos milagres espirituais não é passada. Com Cristo e com o Espírito Santo, nada é impossível. O último dia mostrará que houve alguns que começaram como Festo e eram como ele, mas, finalmente, voltaram-se, arrependeram-se, e terminaram como São Paulo. Enquanto há vida, devemos ter esperança e orar pelos outros.

  1. Voltemo-nos agora para um retrato diferente. Observemos o Rei Agripa. Este é o homem que se impressionou de tal maneira pelo discurso de São Paulo que disse: “por pouco me persuades a fazer-me cristão”.

Quase”. Deixe-me refletir por um momento a respeito dessa expressão. Estou bem consciente de que de que muitos pensam que a nossa Versão Autorizada da Bíblia em inglês apresenta uma falha aqui, e que não consegue expressar o verdadeiro sentido do original grego. Eles asseveram que a frase seria mais corretamente expressa como “em um curto espaço de tempo” ou “com fraco e débil argumento tu estás me persuadindo”.  Ouso dizer que não posso aceitar a visão desses críticos, embora admita que a frase é um tanto obscura. No entanto, em questões desse gênero, não ouso intitular qualquer homem de mestre. Sustento, juntamente com uma série de comentaristas excelentes, tanto antigos quanto modernos[6], que a tradução dada em nossa versão autorizada está certa e correta. Estou fortalecido em minha crença pelo fato de que esta é a visão de alguém que pensou, falou, e escreveu na língua do Novo Testamento, e refiro-me ao famoso grego João Crisóstomo. E por último, mas não menos importante, nenhum outro ponto de vista, a meu ver, parece harmonizar-se com a exclamação do Apóstolo São Paulo no verso seguinte. “Quase!”, ele parece dizer, retomando as palavras de Agripa. “Eu não quero que sejas quase, mas completamente cristão”. À luz desses argumentos, defendo nossa versão antiga.

Agripa, cujo retrato agora demanda nossa atenção, foi, em muitos aspectos, de natureza muito diversa da de Festo. De origem judaica, e tendo crescido entre os judeus, ainda que não fosse de puro sangue judeu, ele estava completamente familiarizado com muitas coisas de que o governador romano era totalmente ignorante. Conhecia e “cria nos profetas”[7]. Deve ter entendido muitas coisas no discurso de Paulo, que eram meros “nomes e divisões” e fantasias delirantes para seu companheiro no lugar da audiência. Tinha uma secreta convicção interior de que o homem diante dele tinha a verdade do seu lado. Ele viu, sentiu, foi movido, afetado, teve sua consciência abalada e tinha desejos e aspirações interiores. Mas não conseguia ir adiante. Ele viu; mas não teve coragem de agir. Ele sentia; mas não tinha a vontade de se mover. Ele não estava longe do reino de Deus; mas permaneceu do lado de fora. Ele não condenou nem ridicularizou o Cristianismo; porém, como um homem paralisado, ele só podia contemplá-lo e examiná-lo, e não tinha a força de espírito para a ele se aferrar e recebê-lo em seu coração.

Agora, leitor, existem muitos cristãos professos como Agripa? Receio que exista só uma resposta a essa pergunta. Eles formam um grande exército, uma multidão que é difícil de numerar. Podem ser encontrados em nossas igrejas, e atendem com bastante assiduidade a todos os meios de graça. Não têm nenhuma dúvida sobre a verdade da Bíblia. Não têm a menor objeção à doutrina do Evangelho. Sabem a diferença entre o ensino sensato e o insensato. Admiram a vida de pessoas santas. Leem bons livros, e dão dinheiro para bons objetos. Mas, infelizmente, parecem nunca ir além de um certo ponto em sua religião. Nunca saem corajosamente ao lado de Cristo, nunca tomam a cruz, nunca confessam a Cristo diante dos homens, nunca desistem de inconsistências mesquinhas. Costumam dizer que “querem, e pretendem, e esperam e têm o propósito de algum dia serem cristãos mais decididos”. Sabem que não são bem o que deveriam ser no presente, e esperam que um dia seja diferente. Mas a “ocasião favorável“[8] parece nunca vir. Eles continuam querendo e pretendendo, e, querendo e pretendendo, saem do palco. Vivem querendo e pretendendo, e, com frequência, querendo e pretendendo morrem; gentis, de boa índole, pessoas respeitáveis; não inimigos, mas sim amigos de São Paulo, todavia, como Agripa, “quase cristãos”.

Você pode perguntar como é que os homens podem ir tão longe na religião, e, ainda assim, não irem mais longe? Como é que eles podem ver tanto, saber tanto, e, contudo, não seguirem a luz que eles têm para o “dia perfeito?”[9] Como é que o intelecto, a razão e a consciência podem fazer tal progresso em relação ao Cristianismo, e, mesmo assim, o coração e a vontade podem ficar para trás?

As respostas a estas questões serão dadas em breve. O medo do homem retém alguns. Eles têm um temor covarde de serem ridicularizados, escarnecidos e desprezados, se eles se tornarem cristãos decididos. Não se atrevem a arriscar a perda da boa opinião dos homens. Como muitos dos governantes judeus no tempo de nosso Senhor, “amam mais o louvor dos homens do que a glória de Deus”[10] (João 12:43).

O amor ao mundo detém outros. Eles sabem que a religião decidida implica a separação de alguns dos divertimentos elegantes e modos de passar o tempo, que são comuns no mundo. Não conseguem decidir-se por essa separação. Recuam de seu voto batismal para “renunciar às pompas e vaidades deste mundo”[11].  Como a mulher de Ló, gostariam de ser poupados da ira de Deus; todavia, como ela, precisam “olhar para trás“[12] (Gênesis 19:26.).

Uma certa forma sutil de autojustificação retém muitos. Eles consolam-se com o pensamento secreto de que, de qualquer forma, não são tão ruins quanto Festo. Não são como algumas pessoas que conhecem: não desprezam a religião. Vão à igreja. Admiram homens sérios como São Paulo. Com certeza, não se perderão por conta de algumas poucas inconsistências!

O medo mórbido de serem devotados retém muitos, e especialmente homens jovens. São oprimidos pela ideia de que não podem tomar uma posição decidida na religião sem se comprometerem com alguma “escola de pensamento” em particular. Isso é o que não querem fazer. Esquecem-se de que o caso de Agripa não é referente à doutrina, mas à conduta, e de que a ação decidida sobre o dever é o caminho mais seguro para se obter luz sobre a verdade doutrinal. “Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus” (João 7:17).

Algum pecado secreto, temo, retém não poucos. Eles sabem em seus corações que estão se agarrando a alguma coisa que é errada aos olhos de Deus. Há uma cunha de ouro[13] de Acã em algum lugar, ou uma Herodias[14], ou uma Drusila[15], ou uma Berenice[16] em sua história particular, que não vão suportar a luz do dia. Eles não conseguem se separar de seus amados. Não conseguem cortar a mão direita, ou arrancar o olho direito, e assim não podem tornar-se discípulos. Ai dessas desculpas! Pesadas ​​na balança, nada valem e são vãs. Ai daqueles que nelas descansam! A menos que acordem e livrem-se de suas cadeias, naufragarão para sempre.

Estará Agripa lendo este artigo hoje? Há alguém como ele, cujos olhos estejam nesta página? Aceite um aviso gentil de um ministro de Cristo, e tente perceber que você está em uma posição muito perigosa. Desejos, sentimentos, pretensões e propósitos não constituem uma religião salvífica. Nada mais são do que rolhas pintadas, que lhe permitem flutuar na superfície por um tempo, e mantêm sua cabeça acima da água, mas não vão impedi-lo de ser levado pela corrente, e de ser, finalmente, arrebatado por uma cascata pior do que a de Niágara.

 E, afinal de contas, você não está feliz. Você sabe demais sobre religião para ser feliz no mundo: você está misturado demais com o mundo para obter qualquer conforto da sua religião. Acorde para a percepção de seu perigo e sua insensatez. Resolva, com a ajuda de Deus, a tornar-se decidido. Tome da espada, e lance fora a bainha. “Se você não tem espada, venda a sua capa e compre uma” (Lucas 22:36). Queime seus navios, e marche para a frente. Não somente olhe para a arca, e admire-a; mas adentre nela antes que a porta esteja fechada e o dilúvio comece. Uma coisa, de qualquer maneira, pode ser estabelecida como um axioma nos elementos da religião. Um “quase” cristão não é um homem seguro tampouco feliz.

  1. Vamos nos voltar agora ao último dos três retratos. Vamos olhar para o homem que Festo considerou estar “fora de si” e por quem Agripa esteve “quase persuadido a ser um cristão”. Vamos olhar para São Paulo. Este é o homem que corajosamente disse, “Prouvera a Deus que, ou por pouco ou por muito, não somente tu, mas também todos quantos hoje me estão ouvindo, se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias”. Ele desejou que seus ouvintes não sofressem em cadeias ou prisão tal como ele sofria quando lhes falou. Mas lhes desejava que fossem da mesma opinião que ele sobre uma coisa imprescindível; e que compartilhassem de sua paz, sua esperança, seu conforto sólido e de suas expectativas.

 “Tais qual eu sou”. Uma mensagem importante e memorável! Esta é a linguagem de quem está inteiramente convencido e persuadido de que está certo. Ele lançou ao mar todas as dúvidas e hesitações. Ele segura a verdade com as duas mãos firmemente, e não com o indicador e o polegar. É a linguagem do homem que escreveu em um lugar, “porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que Ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia”; e em outro lugar, “porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem futuras, nem potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (2 Tm 1:12; Rm 8:38-39.)

 

(a) Paulo estava inteiramente convencido da verdade dos fatos do Cristianismo. Que o Senhor Jesus Cristo era verdadeiramente “Deus manifestado em carne”[17], — que Ele provara Sua divindade ao efetuar milagres que não poderiam ser negados; que Ele, finalmente, ressuscitara dentre os mortos e ascendera ao céu, e que estava sentado à destra de Deus como o Salvador do homem; sobre todos esses pontos ele tinha se decidido totalmente, e não tinha a menor dúvida de sua credibilidade. Em nome delas, estava disposto a morrer.

 

(b)Paulo estava inteiramente convencido da verdade das doutrinas do Cristianismo. Que somos todos pecadores culpados, e em perigo de ruína eterna; que o grande objetivo da vinda de Cristo era fazer a expiação pelos nossos pecados, e para comprar a redenção ao sofrer em nosso lugar na cruz; que todos aqueles que se arrependem e creem no Cristo crucificado estão completamente perdoados de todos os seus pecados; e que não há outro caminho para a paz com Deus e para o céu após a morte, senão a fé em Cristo; em tudo isto ele cria o mais firmemente possível. Ensinar essas doutrinas foi seu único objeto desde sua conversão até seu martírio.

 

(c)Paulo estava inteiramente convencido de que ele próprio fora transformado pelo poder do Espírito Santo, e ensinado a viver uma nova vida; que uma vida santa, devotada e consagrada a Cristo, era a mais sábia e feliz vida que um homem poderia viver; que a graça de Deus era mil vezes melhor que o favor do homem; e que nada era demais a se fazer por Ele, que o amara e que por ele se dera a Si mesmo. Paulo completou sua carreira sempre “fitando os olhos Jesus”[18], e gastando e se deixando gastar por Ele[19] (Heb. 12:2; 2 Cor. 5:13; 11:15.).

 

(d)Por último, mas não menos importante, Paulo estava inteiramente convencido da realidade do mundo vindouro. O louvor ou o favor do homem, as recompensas ou punições do presente mundo eram todos refugos para ele. Tinha continuamente em vista a herança incorruptível e uma coroa de glória que nunca desapareceria (Fil 3:8; 2 Tim. 5:8). Ele sabia que nada poderia privá-lo daquela coroa. Festo pode tê-lo desprezado e considerado “louco”. O imperador romano, a quem estava sendo enviado, poderia ordenar sua decapitação ou lançamento aos leões. Que importava? Estava firmemente persuadido de que ele tinha um tesouro guardado no céu que nem Festo nem César poderiam tocar, e que seria seu por toda a eternidade.

Isso é o que Paulo quer dizer com “tais quais eu sou”. Sobre os fatos, as doutrinas, as práticas, e as recompensas de vir ao Cristianismo, ele tinha uma convicção firme, estabelecida e enraizada; uma convicção que desejava ser partilhada por todos os homens. Estava confiante de que queria que outros desfrutassem da mesma confiança. Não tinha dúvida ou receio sobre o futuro estado de sua alma. De bom grado, ele teria visto Festo, Agripa, Berenice, e todos à sua volta, na mesma condição feliz.

Agora, leitor, haverá muitos nos dias atuais como Paulo? Eu não quero dizer, obviamente, se há muitos apóstolos inspirados. Antes, o que quero dizer é: é comum encontrar cristãos que possuem tão inteira, decidida e completa confiança como ele? Receio que só pode haver uma resposta a esta questão. “Não muitos”, sejam ricos ou pobres, altos ou baixos, “são chamados”. “E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram.” (1 Cor. 1 :26; Mat. 6:14).  Olhe para onde desejar, busque onde quiser, na cidade ou no campo, há poucos “inteiramente” cristãos. Festo e Agripa estão por toda parte: encontramo-nos com eles a cada passo. Contudo, há alguns poucos seguidores de Paulo, inteira e sinceramente dedicados. Todavia, uma coisa é bastante certa. Estes poucos são “sal da terra”, e “luz do mundo” (Mat. v. 13, 1 4.). Estes poucos são a glória da Igreja e servem para mantê-la viva. Sem eles, a Igreja seria pouco melhor que uma carcada decadente, uma casa caiada sem luz, um motor a vapor sem fogo, um castiçal de ouro sem vela, uma alegria para o diabo, e uma ofensa a Deus.

Estes são homens que abalam o mundo, e deixam uma marca indelével atrás deles. Martinho Lutero, John Wesley e William Wilberforce foram odiados e pouco estimados enquanto viveram, mas o trabalho que fizeram para Cristo nunca será esquecido. Eles eram “completamente” cristãos.

Estes são homens que desfrutam da verdadeira felicidade em sua religião. Como Paulo e Silas, podem cantar na prisão, e, como Pedro, podem dormir tranquilamente à beira da sepultura (Atos 12: 6; 16: 25.). A fé robusta dá-lhes uma paz interior que os torna independentes de problemas terrenos, e compele até mesmo seus inimigos ao espanto. Os cristãos mornos da Laodiceia têm pouco conforto em sua religião. São os homens “completos” que têm grande paz. Relata-se que o primeiro mártir da Rainha Maria a Sanguinária, John Rogers, a caminho de ser queimado vivo por ser protestante, caminhou até à estaca em Smithfield tão alegremente quanto se estivesse indo para seu casamento. As palavras francas, corajosas do ancião Latimer, antes do acendimento das tochas, no dia de seu martírio, em Broad Street, Oxford, não foram esquecidas até hoje. “Coragem! Irmão Ridley”, gritou para seu companheiro de sofrimento. “Vamos acender uma vela na Inglaterra hoje, pela graça de Deus, que nunca se apagará”. Esses homens eram “inteiramente” cristãos.

Esse homem inteiramente cristão sim que estará seguro e preparado para encontrar seu Deus a qualquer momento, ao final da tarde, ao cantar do galo, ou pela manhã,— ele sim que se alegrará com a paz sentida em sua religião, paz não afetada por enfermidades, lutos, falências, revoluções e pelo soar da última trombeta; ele sim que fará o bem em seus dias e em sua geração, e será uma fonte de influência cristã para todos ao seu redor, influência conhecida e reconhecida ainda por muito tempo depois que tiver jazido em seu túmulo; deixe que esse homem se recorde do que lhe digo hoje, e nunca o esqueça. Você não deve se contentar em ser “quase” cristão, como Agripa se contentou. Você deve se esforçar, trabalhar, agonizar e orar para ser um cristão “completo”, como Paulo.

E agora, leitor, deixemos estes três retratos com uma auto- investigação e um autoexame. O tempo é curto. Nossos anos desaparecem rapidamente. O mundo está envelhecendo. O grande julgamento em breve começará. O Juiz em breve aparecerá. O que somos? Com quem nos parecemos? De quem é esta imagem inscrita em nós? É a de Festo, de Agripa, ou a do apóstolo Paulo?

Onde estão Festo e Agripa agora? Não sabemos. Um véu foi deitado sobre suas subsequentes histórias, e se morreram como viveram, não podemos dizer. Mas onde está Paulo, o cristão “completo”? Essa pergunta podemos responder. Ele está “com Cristo, que é muito melhor” (Fil 1: 23). Está aguardando pela ressurreição dos justos, naquele paraíso de descanso em que o pecado, Satanás e o sofrimento não podem incomodá-lo mais. Ele combateu o bom combate. Ele completou a carreira, ele manteve a fé. A coroa está guardada para ele, a qual ele vai receber no grande dia do reencontro da aparição do Senhor (2 Tim. 4: 7- 8.).

E, leitor, vamos dar graças a Deus, apesar de Paulo estar morto e não mais entre nós, o Salvador que fez de Paulo o que ele era, e manteve-o até o fim, ainda vive e nunca muda; sempre capaz de salvar, sempre disposto a receber. Que o tempo passado nos baste, se estivemos brincando até então com nossas almas. Vamos virar uma nova página no início de 1882. Vamos nos levantar e começar com Cristo, se nós nunca começamos antes. Vamos continuar com Cristo até o fim, se já começamos com Ele. Com a graça de Deus, nada é impossível. Quem teria pensado que Saulo, o fariseu, perseguidor dos cristãos, algum dia se tornaria o próprio cristão “completo”, o grande Apóstolo dos gentios, e viraria o mundo de cabeça para baixo? Enquanto há vida, há esperança. O seguidor de Festo e de Agripa ainda pode ser convertido, e viver por muitos anos, e jazer na sepultura finalmente como um “completo” cristão como Paulo.

HINO

Os tempos estão mudando, os dias estão voando,

Os anos se vão rapidamente,

Enquanto o murmúrio se mistura descontroladamente

Às agitações da vida que segue;

Sons de tumulto, sons de triunfo,

Hinos de casamento e sinos de funeral,

No entanto, através de uma nota principal,

O lema dos anjos, – “está bem.”

 

Podemos ouvi-lo através da pressa

Da onda de tempestade da meia-noite;

Podemos ouvi-lo através do choro

Em volta do túmulo recém-fechado;

Na casa triste enlutada,

Na sala escura da dor,

Se ouvirmos humildemente, corretamente,

Podemos pegar essa calmaria.

 

Não encurtaste Teu braço,

Tampouco viraste Teu ouvido,

Gentil Salvador, sempre pronto

Para ouvir a oração desse pobre suplicante:

Mostra-nos a luz, certamente seguiremos descansando

Nos teus caminhos mais escuros;

Dê-nos a fé, certamente seguiremos confiando

Através dos dias tristes e maus.

 

Então ‘sarja ser, enquanto anos são fugazes,

Ainda que as nossas alegrias se vão com eles,

Em Teu imutável amor regozijando,

Calmamente seguiremos na jornada;

Até que enfim, as tristezas da vida tenham fim,

E todo canto de graça cantaremos,

Juntos no coro celestial,

“Senhor, Tu fizeste bem todas as coisas.”

ORE PARA QUE O ESPÍRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA TRAZER UM CONHECIMENTO SALVÍFICO DE JESUS CRISTO E PARA EDIFICAÇÃO DA IGREJA

FONTE:

http://www.tracts.ukgo.com/three_pictures.doc

Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público

Tradução: Alessandra Castillo da Costa e Rilda Santos

Revisão: Cibele Cardozo

Capa: Armando Marcos

 

Projeto Castelo Forte – Divulgando o Evangelho do SENHOR.

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Saiba mais sobre J.C.Ryle em nosso

Projeto Ryle – Anunciando a Verdade Evangélica.

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[1] Este tratado contém a substância de um sermão pregado em abril de 1881, na Igreja de St. Mary, Oxford, diante da Universidade, e na Capela Real de St. James, Londres. (Nota do Autor)

[2] N.T.: Thomas Gainsborough (1727-1788), Sir Joshua Reynolds (1723-1792) e George Romney (1734-1802) foram pintores ingleses influentes, que lideraram a retratística na segunda metade do século XVIII.

[3] N.T.: O autor refere-se aqui às ruínas da Abadia de Melrose e da Abadia de Bolton, ambas construídas no século XII. A Abadia de Melrose, caracterizada pelo estilo gótico, está localizada na Escócia; já a Abadia de Bolton  é um vilarejo localizado em Yorkshire, norte da Inglaterra, cujo nome alude ao convento fundado por uma ordem agostiniana e denominado Bolton Priory.

[4] N.T.: Eclesiastes 12, versículos 5-7: “Como também quando temerem o que é alto, e houver espantos no caminho, e florescer a amendoeira, e o gafanhoto for um peso, e perecer o apetite; porque o homem se vai à sua casa eterna, e os pranteadores andarão rodeando pela praça; Antes que se rompa o cordão de prata, e se quebre o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se quebre a roda junto ao poço, E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”.

[5]N.T.: 2 Crônicas 33, versículos 10-12: “Falou o Senhor a Manassés e ao seu povo, porém não deram ouvidos. Pelo que o Senhor trouxe sobre eles os comandantes do exército do rei da Assíria, os quais prenderam Manassés com ganchos e, amarrando-o com cadeias de bronze, o levaram para Babilônia. E estando ele angustiado, suplicou ao Senhor seu Deus, e humilhou-se muito perante o Deus de seus pais”.

[6] Lutero, Beza, Grotius, Poole Bengel, Stier, e Dean Howson. (Nota do Autor)

[7] N.T.: Atos 26, versículos 26-27: “Porque o rei, diante de quem falo com liberdade, sabe destas coisas, pois não creio que nada disto lhe é oculto; porque isto não se fez em qualquer canto. Crês tu nos profetas, ó rei Agripa? Sei que crês”.

[8] N.T.: Isaías 49, versículo 8: “Assim diz o Senhor: ‘No tempo favorável eu lhe responderei, e no dia da salvação eu o ajudarei’ […]”.

[9] N.T.: Provérbios 4, versículo 18: “Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito”.

[10] N.T.: João 12, versículo 43: “Porque amavam mais a glória dos homens do que a glória de Deus”.

[11] N.T.: O autor alude ao seguinte trecho do Catecismo Anglicano: “Pergunta: Que prometeram então por ti os teus Padrinhos? Resposta: Prometeram e fizeram voto de três coisas em meu nome: Primeiro, que eu renunciaria ao diabo e a todas as suas obras, às pompas e vaidades deste mundo perverso e a todos os apetites pecaminosos da carne; Segundo, que eu creria em todos os Artigos da Fé Cristã; e Terceiro que guardaria a santa vontade de Deus e seus mandamentos, e neles andaria todos os dias de minha vida”.

[12] N.T: Gênesis 19, versículo 26: “E a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida numa estátua de sal”.

[13] N.T.: Josué 7, versículos 20-21: “E respondeu Acã a Josué, e disse: Verdadeiramente pequei contra o Senhor Deus de Israel, e fiz assim e assim. Quando vi entre os despojos uma boa capa babilônica, e duzentos siclos de prata, e uma cunha de ouro, do peso de cinqüenta siclos, cobicei-os e tomei-os; e eis que estão escondidos na terra, no meio da minha tenda, e a prata por baixo dela”.

[14] N.T.: Marcos 6, versículos 17-18: “Porquanto o mesmo Herodes mandara prender a João, e encerrá-lo maniatado no cárcere, por causa de Herodias, mulher de Filipe, seu irmão, porquanto tinha casado com ela. Pois João dizia a Herodes: Não te é lícito possuir a mulher de teu irmão”.

[15] N.T.: O historiador Flávio Josefo (em  Antiguidades Judaicas, Livro XX, cap. 5, v. 844) relata  que “Drusila abandonou o rei Aziza, seu marido” e que “sendo ela a mais bela mulher de seu tempo, Félix, governador da Judéia, […] apenas a viu e concebeu por ela uma violenta paixão, chegando a propor-lhe […] que abandonasse o marido para desposá-lo, prometendo torná-la a mulher mais feliz do mundo. Ela, agindo com imprudência, e também para ser livrar do tormento que Berenice, sua irmã, lhe causava por invejar a sua beleza,  consentiu na proposta e não teve receio de abandonar, por esse motivo, a sua religião”.

[16] N.T.: Berenice, filha de Agripa, desposou seu próprio tio Herodes (cf. Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro XIX,  capítulo 7, v. 830).

[17] N.T.: 1 Timóteo 3, versículo 16: “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, e recebido acima na glória”.

[18] N.T.: Hebreus 12, versículo 2: “fitando os olhos em Jesus, autor e consumador da nossa fé, o qual, pelo gozo que lhe está proposto, suportou a cruz, desprezando a ignomínia, e está assentado à direita do trono de Deus”.

[19] N.T.: 2 Coríntios 12, versículo 15: “Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas. Se mais abundantemente vos amo, serei menos amado?”

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