Qual é a sua Esperança? (sermão – J.C.Ryle)

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Sermão publicado em Dezembro de 1856,

para o ano novo de 1857

Pelo Rev. J.C.Ryle

Quando ministro em Helmingham, Suffolk,

Leste da Inglaterra.

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E o próprio nosso Senhor Jesus Cristo e nosso Deus e Pai, que nos amou, e em graça nos deu uma eterna consolação e boa esperança

2 Tessalonicenses 2:16.

 

 

LEITOR,

 

Você está vendo uma pergunta no topo desta página. Ao fazê-la, não faço segredo algum sobre minha intenção. Quero que considere “qual é sua esperança quanto à sua alma?”

 

Mais um ano de nossas vidas curtas está chegando ao fim. A areia está correndo rapidamente pela ampulheta. Estamos nos dirigindo para a morte, para o julgamento e para a eternidade. Mais alguns invernos e teremos partido. Com certeza você não irá se espantar caso eu grite bem alto, no papel de seu guarda espiritual, e pergunte: “qual é sua esperança quanto à sua alma?”

 

“Eu espero” é uma expressão bastante comum. Todos podem dizer “eu espero”. Em nenhum tema essa expressão é utilizada tão comumente quanto na religião. Nada é mais frequente do que ouvir homens dando um golpe certeiro em suas consciências com esta expressão conveniente: “Eu espero”. “Eu espero que dê tudo certo no final.” “Espero que seja um homem melhor algum dia.” “Espero que todos nos encontremos no paraíso.” Mas, o que eles esperam? Em que sua esperança está construída? Por diversas vezes eles não são capazes de dizer. Comumente trata-se de uma mera desculpa para evitar um assunto desagradável. “Esperando” eles seguem a vida. “Esperando”, envelhecem. “Esperando”, morrem por fim – e descobrem, muitas vezes, que estão perdidos no inferno para sempre.

 

Leitor, peço sua séria atenção ao tema deste sermão. É algo da mais profunda importância. “Nessa esperança somos salvos.” (Rom 8.24.) Sendo assim, certifiquemo-nos de que nossa esperança é sensata. Você tem uma esperança de que seus pecados sejam perdoados, seu coração seja renovado e sua alma fique em paz com Deus? Então, sua esperança é “boa” e “viva”, e uma esperança que “não decepciona”. Considere seus caminhos. Seja honesto, buscando fazer uma investigação sobre a condição de sua alma. Se sua esperança for boa, uma investigação não fará mal algum. Se for ruim, é uma boa hora para descobrir e, então, buscar uma esperança melhor.

 

Existem cinco marcas de uma “boa esperança”. Desejo apresentá-las em ordem. Pergunte-se o que conhece a respeito delas. Prove sua própria condição por meio delas. Feliz aquele que pode dizer sobre cada uma delas: “Eu a conheço por experiência. Esta é a minha esperança acerca de minha alma.”

 

  1. Em primeiro lugar, uma boa esperança é uma esperança que se pode explicar. O que diz a Palavra? “Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.” (1 Pe 3.15.)

 

Se sua esperança for sensata, você deve ser capaz de dar algum testemunho sobre ela. Deve poder mostrar o porquê e baseado em que espera ir para o paraíso quando morrer. Você consegue fazer isso?

 

Que ninguém entenda mal o que quero dizer. Não estou dizendo que um profundo aprendizado e um grande entendimento sejam necessários para a salvação. Um homem pode saber vinte idiomas e ter Doutorado em Teologia, e ainda assim estar perdido. Um homem pode não ser capaz de ler, ter um fraco entendimento e, ainda assim, ser salvo. No entanto, quero dizer que um homem deve saber qual é a sua esperança e ser capaz de nos dizer sua natureza. Não acredito que alguém tenha algo se não souber nada sobre isso.

 

Mais uma vez, que ninguém compreenda mal o que quero dizer. Não estou dizendo que o poder da oratória é necessário para a salvação. Pode haver finas palavras nos lábios de um homem e nem um pouco de graça em seu coração. Pode haver poucas e gagas palavras e, ainda assim, um sentimento profundo por dentro, plantado ali pelo Espírito Santo. Há aqueles que não podem falar muitas palavras por Cristo, mas que, ainda assim, morreriam por Ele. Mas para tudo isso, digo que o homem que tem uma boa esperança deve conseguir nos dizer o porquê. Se ele não puder dizer nada além de “sinto-me um pecador e não tenho esperança a não ser em Cristo”, já é alguma coisa. Porém, se ele não puder dizer nada, devo suspeitar que não tenha uma esperança real.

 

Sei que a opinião que acabei de expressar desagrada a muitos. Milhares não sentem nenhuma necessidade de um conhecimento claro, o que eu creio ser essencial para uma esperança salvadora. Contanto que um homem vá à igreja no domingo e que batize seus filhos, devemos estar contentes, eles pensam. “O conhecimento,” eles nos dizem, “pode ser para pastores e professores de teologia, mas é muito exigi-lo de um homem comum.”

 

Minha resposta a tais pessoas é curta e simples. Onde, em todo o Novo Testamento, encontraremos que homens eram chamados cristãos a menos que soubessem algo do cristianismo? Haverá alguém que tentará nos convencer de que um cristão de Corinto, ou de Colossos, ou de Tessalônica, Filipo ou Éfeso, poderia não nos ter dito qual era sua esperança quanto à sua alma? Deixe-os pensarem assim. Eu não posso. Creio que, ao se pedir a um homem que conheça a base de sua esperança, estou apenas estabelecendo um padrão do Novo Testamento. A ignorância pode servir bem para um católico romano. Ele pertence ao que acredita ser a verdadeira igreja! Ele faz conforme seu padre lhe diz. Ele não faz mais perguntas! Mas a ignorância nunca pode ser a característica de um cristão protestante. Ele deve saber no que crê, e se ele não souber, está no caminho errado.

 

Leitor, busque em seu coração e veja como esta questão está em sua alma. Você não pode nos dizer nada além de “minha alma espera ser salva”? Você não é capaz de dar nenhuma explicação sobre as bases de sua confiança? Não pode nos mostrar nada mais satisfatório do que sua própria expectativa vaga? Se esse for o caso, está em perigo iminente de estar perdido para sempre. Assim como Ignorância, em “O Peregrino”, você pode chegar ao fim de sua jornada e cruzar o rio com o Falsa Esperança, sem muitos problemas. Mas, assim como Ignorância, você pode descobrir, para seu pesar, que não há admissão para você na Cidade Celestial. Ninguém entra ali além daqueles que sabem no que têm crido.[1]Leitor, busque em seu coração e veja como essa questão está em sua alma.Você não é capaz de nos dizer nada além de que “espera ser salvo”? Não pode dar nenhuma explicação sobre a base de sua vaga expectativa? Se esse for o caso, você está em perigo iminente de estar perdido para sempre.

 

Coloco este princípio como um ponto de partida e peço-lhe que o considere bem. Sei que há diferentes graus de graça entre verdadeiros cristãos. Não me esqueço de que há muitos cuja fé é muito fraca e cuja esperança é muito pequena, na família de Deus. Mas creio, confiantemente, que o padrão de exigência que estabeleci aqui não é nem um pouco exigente. Acredito que um homem que tenha uma boa esperança será sempre capaz de contar um pouco sobre ela.

 

  1. Em segundo lugar, uma boa esperança é aquela que é retirada da Escritura. O que diz Davi? “esperança em sua palavra.” “Lembra-te da tua palavra ao teu servo, pela qual me deste esperança.” O que diz Paulo? “Pois tudo o que foi escrito no passado, foi escrito para nos ensinar, de forma que, por meio da perseverança e do bom ânimo procedentes das Escrituras, mantenhamos a nossa esperança.” (Salmo 119.81 – Romanos 15.4).

 

Se a sua esperança é sã, você deve ser capaz de voltar-se a algum texto, fato ou doutrina da palavra de Deus como fonte de tal esperança. Sua confiança deve se levantar a partir de algo que Deus disse em Sua Bíblia, e que seu coração recebeu  e acreditou.

 

Ter bons sentimentos sobre o estado de nossas almas não é suficiente. Podemos nos lisonjear afirmando que está tudo bem e que iremos para o céu quando partirmos, e ainda assim, não possuirmos nada para mostrar nossa razão além de mera fantasia e imaginação. “O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa.” “Quem confia em si mesmo é insensato.” Frequentemente ouço pessoas que estão morrendo dizer que estão muito felizes e prontas para partir. Tenho ouvido-as dizer que se sentem como se não desejassem nada neste mundo. E por todo este tempo tenho percebido que elas eram profundamente ignorantes quanto à Escritura, e pareciam incapazes de lançar qualquer base sobre uma única verdade do Evangelho. Jamais consigo me sentir confortável em relação a essas pessoas. Estou persuadido de que há algo errado com sua condição. Bons sentimentos sem a Escritura não constroem uma boa esperança.

 

Não é o bastante ter uma boa opinião de outros sobre o estado de nossas almas. Podemos talvez ouvir em nossos leitos de morte para “mantermos nosso ânimo” e “não temermos”. Talvez digam que vivemos uma vida boa e que temos um bom coração, e que jamais fizemos mal a ninguém, e que não somos tão maus quanto algumas pessoas. E durante todo esse tempo nossos amigos podem não ter trazido nenhuma palavra sequer da Escritura, e podem nos ter envenenado. Tais amigos são tristes consoladores. Ainda que bem intencionados, são completos inimigos de nossas almas. A boa opinião dos outros, sem a garantia da palavra de Deus, nunca irá construir uma boa esperança.

 

Leitor, você conhece a sensatez de sua própria esperança? Então, procure e busque dentro de seu coração por algum texto, doutrina ou fato proveniente do livro de Deus. Sempre haverá algo a quem sua alma se apega, se você for um verdadeiro filho de Deus. O ladrão morimbundo de Londres, que foi visitado por um Missionário, e que se encontrava totalmente ignorante acerca do Cristianismo, apegou-se a um simples fato no Evangelho e encontrou conforto nele. Este fato era a história do ladrão arrependido. “Senhor”, ele disse, quando visitado pela segunda vez, “existem mais ladrões neste livro que você leu ontem?” . O Hindu que estava morrendo, e que foi encontrado por um missionário no acostamento de uma estrada, compreendeu um texto da Primeira Carta de João e encontrou nele a paz. Aquele texto era o ditado precioso: “O sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, limpa-nos de todo pecado”. Essa é a experiência de todo Cristão verdadeiro. Inculto, humile, pobre, assim como muitos deles são, eles se apropriaram de algo na Bíblia e isto lhes fez ter esperança. A esperança que “não envergonha” nunca está separada da palavra de Deus.

 

Você se pergunta muitas vezes o porquê de ministros lhe pressionarem tanto para que você leia sua Bíblia. Admira-se que falem tanto sobre a importância de se pregar e que o encorajem tão frequentemente a ouvir sermões. Não se admire mais. Não mais se indague. Nosso objetivo é torná-lo próximo da palavra de Deus. Queremos que tenha uma boa esperança, e sabemos que uma boa esperança deve ser retirada das Escrituras. Sem ler e ouvir você viverá e morrerá na ignorância. Portanto, imploramos: “Busque as Escrituras.” “Ouça e sua alma viverá.”

 

Caro leitor, cuidado com uma esperança que não vem da Escritura. É uma falsa esperança e muitos descobrirão seu preço. Aquele glorioso e perfeito livro, a Bíblia, apesar de ser desprezado pelos homens, é a única fonte da qual a alma de um homem pode obter a paz. Muitos desdenham do velho livro em vida e descobrem sua necessidade dele quando estão morrendo. A Rainha em seu palácio e o pobre no seu abrigo, o filósofo em seu estudo e a criança na casa de campo – todos devem ficar felizes em buscar a água viva da Bíblia se desejam ter esperança. Honre sua Bíblia. Leia sua Bíblia. Apegue-se à sua Bíblia. Não há sequer um pouco de esperança sólida nesta terra para o outro lado da sepultura que não seja retirada da Palavra.

 

III. Em terceiro lugar, uma boa esperança é uma esperança que descansa totalmente em Jesus Cristo. O que diz Paulo a Timóteo? Ele diz que Jesus Cristo “é nossa esperança.” O que diz ele aos colossenses? Ele fala “Cristo em vocês, a esperança da glória.” (1 Timóteo 1.1 – Colossenses 1.27.)

 

O homem que tem uma boa esperança encontra todas as suas expectativas de perdão e glória na meditação de Jesus, o Filho de Deus. Ele conhece seu próprio pecado. Ele sente que é culpado, fraco e perdido por natureza. Entretanto, ele encontra perdão e paz com Deus oferecidos livremente através de sua fé em Cristo. Ele aceita a oferta. Lança-se com todos os seus pecados em Jesus e descansa nEle. Jesus e Sua redenção na cruz, Jesus e Sua retidão, Jesus e Sua obra completa, Jesus e Sua intercessão, Jesus, Jesus e, apenas, Jesus é o fundamento da confiança de sua alma.

 

Leitor, cuidado ao supor que qualquer esperança é boa se não está fundada em Cristo. Todas as demais esperanças são construídas sob a areia. Elas podem ser belas no verão da saúde e prosperidade, mas falharão no dia da doença e na hora de nossa morte. “Porque ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo.” (1 Coríntios 3.11.)

 

Membresia em uma igreja não é nenhum fundamento de esperança. Podemos pertencer a melhor das igrejas e ainda assim nunca ter pertencido a Cristo. Podemos preencher nossos bancos regularmente todos os domingos e ouvir os sermões de pastores ortodoxos e ordenados, e ainda assim nunca ter ouvido a voz de Jesus ou O seguido. Se não temos nada melhor do que a membresia em uma igreja para nos apegarmos, estamos em apuros. Não temos nada sólido sob nossos pés.

 

A recepção dos sacramentos não é nenhum fundamento de esperança. Podemos ser lavados nas águas do batismo e não sabermos nada sobre a água da vida. Podemos ir à mesa do Senhor a cada domingo de nossas vidas e ainda assim nunca termos comido o corpo de Cristo e bebido o sangue de Cristo pela fé. De fato, nossa condição é miserável se não podemos dizer nada além disso. Possuímos nada além da aparência do Cristianismo. Estamos inclinados e apoiados num caniço.

 

O próprio Cristo é a única fundação de uma boa esperança. Ele é a rocha, Sua obra é perfeita. Ele é a pedra, a pura pedra, a pedra angular. Ele é capaz de suportar todo o peso que podemos colocar sobre Ele. “Aquele que nela confia jamais será envergonhado.” (1 Pedro 2.6.)

 

Este é o ponto no qual todos os verdadeiros santos de todos os tempos estão completamente de acordo. Discordando em outras questões, eles têm tido o mesmo pensamento quanto a isso. Incapazes de verem da mesma forma o governo da igreja, sua disciplina e liturgias, eles sempre viram a base da esperança da mesma forma. Nenhum deles jamais deixou este mundo confiando em sua própria retidão. Cristo tem sido toda a sua confiança. Eles têm esperado nEle, e não têm sido envergonhados.

 

Leitor, você saberia dizer em qual leito de morte um ministro do Evangelho se sente confortável em estar presente? Saberia dizer quais cenas finais são animadoras para nós, e nos deixam uma impressão favorável em nossas mentes? Gostamos de ver pessoas que estão morrendo valorizarem a Cristo. Enquanto puderem apenas falar a respeito do “Todo Poderoso”, da “Providência” e de “Deus”, “da misericórdia”, ficaremos em dúvida. Morrendo neste estado, não dão nenhum sinal satisfatório. Dê-nos o homem e a mulher que sentem profundamente seus pecados e se lançam sobre Jesus, que valorizam Seu amor sacrificial, que gostam de ouvir sobre Seu sangue expiatório, que voltam várias vezes para a história da Sua cruz. Estes são os leitos de morte que deixam boas evidências. Na minha opinião, prefiro ouvir o nome de Jesus vir entusiasticamente dos lábios de um familiar morrendo do que vê-lo morrer sem uma palavra sobre Cristo, e então ouvir de um anjo que ele está salvo.

 

  1. Em quarto lugar, uma boa esperança é aquela que é sentida dentro do coração. O que diz Paulo? Ele fala de uma esperança que “não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações.” Ele fala sobre alegrar-se “na esperança”. (Romanos 5.5 – 12.12.)

 

O homem que tem uma boa esperança é consciente sobre ela. Ele sente dentro de si mesmo algo que outro homem não sente. Ele sabe que possui uma expectativa bem fundada de que boas coisas estão por vir. Esta consciência pode variar de uma pessoa para outra. Em uma pessoa, ela é forte e bem definida. Em outra, é frágil e indistinta. – Ela pode variar bastante em diferentes estágios da experiência de uma mesma pessoa. Em um momento ela pode estar cheia de “alegria e paz na crença”. Em outro, pode estar deprimida e abatida. Mas em todas as pessoas que têm uma boa esperança, em maior ou menor nível, esta consciência está presente.

 

Sei bem que esta verdade tem sido destemidamente abusada e distorcida. Tem sido trazida para grande infâmia pelo fanatismo, entusiasmo e extravagância de alguns cristãos professos. Mera emoção animal tem sido confundida com o trabalho do Espírito Santo. Os sentimentos forçados de pessoas fracas e nervosas têm sido rapidamente entendidos como supostos resultados da graça. E então vem o mal.

 

O contentamento tem sido derramado nos sentimentos das diversas religiões. Sua existência tem sido negada e vigiada. E o resultado é que o próprio nome “sentimentos” na religião é, muitas vezes, temido e detestado.

 

Entretanto, o abuso e a perversão de uma verdade nunca deve ter a permissão de nos roubar sua utilidade. Quando tudo que pode ser dito contra o fanatismo e o entusiasmo for dito, ainda assim será inegável que os sentimentos religiosos são claramente descritos na Escritura. A palavra de Deus nos diz que os verdadeiros Cristãos têm “paz”, “descanso”, “alegria” e “confiança”.  Fala sobre alguns que têm o “testemunho do Espirito”, fala sobre alguém que “não teme mal algum”, de alguém que aprecia a “convicção”, sobre alguém que “sabe em quem tem crido”, de alguém que está bem certo de que “nada poderá nos separar do amor de Deus em Cristo”. Esses são os sentimentos pelos quais luto. Essa é a experiência sóbria e interior, na qual não vejo nada extravagente, entusiástica ou fanática. De tais sentimentos, digo com convicção que nenhum homem deve se envergonhar. E vou além, e digo que nenhum homem tem uma boa esperança se não souber algo sobre esses sentimentos em seu próprio coração. E vou mais além e digo que manter qualquer outra doutrina é lançar desonra na obra completa do Espírito Santo.

 

Alguém irá dizer que Deus pretendia que um cristão verdadeiro não tivesse nenhuma consciência interior acerca de seu próprio cristianismo? Alguém irá dizer que a Bíblia ensina que as pessoas podem passar da morte para a vida, serem perdoadas, renovadas e santificadas e, ainda assim, não sentirem nada dessa poderosa mudança interior? Deixe que quem quiser pense assim. Não posso sustentar tal doutrina. Eu teria de acreditar, da mesma forma, que Lázaro não sabia que havia sido trazido da sepultura, ou que Bartimeu não pecebeu que teve a visão restaurada, se acreditasse que um homem não pode sentir dentro de si mesmo o Espírito de Deus.

 

Pode um homem exausto deitar-se na cama e não se sentir descansado? Pode o viajante sedento em um deserto africano beber água e não se sentir refrescado? Pode o navegante faminto em regiões árticas aproximar-se do fogo e não se sentir aquecido? Pode o seminu, faminto e sem teto andarilho em nossas ruas ser vestido, alimentado e hospedado e não se sentir confortado? Pode o homem desfalecente receber uma cura revigorante e não se sentir trazido de volta à vida? Não posso acreditar nisso. Acredito que em cada caso algo será sentido. De tal forma, também não creio que um homem possa ser um verdadeiro cristão se não sentir algo internamente. Um novo nascimento, um perdão dos pecados, uma consciência banhada no sangue de Cristo, uma moradia do Espírito Santo, não são assuntos irrelevantes assim como os homens parecem supor. Aquele que conhece algo sobre isso irá sentir. Haverá um testemunho real e distinto em seu homem interior.

 

Leitor, cuidado com uma esperança que não é sentida e com um cristianismo que é destituído de uma experiência interior. Eles são ídolos dos dias atuais e ídolos diante dos quais milhares estão se curvando. Milhares estão tentando converncer a si mesmos de que pessoas podem nascer de novo e ter o Espírito e, ainda assim, não serem sensíveis a isso. Ou que as pessoas que não têm fé em Cristo nem amor por Seu nome podem ser Seus membros e receber benefícios vindos dEle. Que essas sejam as doutrinas favoritas dos dias modernos! Esses sejam os deuses que tomaram o lugar de Jupiter e Mercúrio, e a imagem que cai do céu! Que essas sejam as novas deidades inventadas por homens pobres, fracos e idólatras! De todos esses ídolos mantenha-se cuidadosamente afastado. Por mais que suas cabeças possam ser de ouro, seus pés não são melhores do que argila. Eles não podem subesistir. Eles irão, mais cedo ou mais tarde, ser destruídos. Pobres são as perspectivas daqueles que os adoram. Sua esperança não é a esperança bíblica. É a esperança de um cadáver. Onde Cristo e Espírito estiverem, sua presença será sentida!

 

Pode alguém em seu juizo normal supor que o apóstolo Paulo teria se alegrado com cristãos que não conheciam nada sobre sentimentos interiores? Podemos imaginar tal poderoso homem de Deus sancionando uma religião que se deveria ter e, ainda assim, não experimentar nada internamente? Poderíamos visualizar um membro de uma das igrejas que ele fundou, que fosse completamente desfamiliarizado com a paz, ou alegria ou confiança em relação a Deus, e que fosse, assim mesmo, aprovado pelo grande apóstolo dos gentios? Afaste-se de tal ideia!  Não lançarei uma reflexão neste momento. O testemunho da Escritura é claro e explícito. Converse sobre entusiasmo e empolgação: existem tais sensações como os sentimentos na religião. O cristão que não conhece nada sobre eles ainda não se converteu, e tem de aprender tudo. O mármore frio de uma estátua grega pode bem ser impassível. A múmia desidratada do Egito pode bem parecer dura e imóvel. A besta empalhada em um museu pode bem ser inerte e gelada. Todas elas são seres sem vida. Porém, onde há vida sempre haverá sentimento. A boa esperança é aquela que pode ser sentida.

 

  1. Finalmente, uma boa esperança é aquela que é manifestada externamente na vida. Mais uma vez, o que diz a Escritura? “Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro.” (1 João 3.3.)

 

O homem que tem uma boa esperança irá mostrá-la de todas as formas. Ela irá influenciar sua vida, seu caráter e sua conduta diária. Ela fará com que ele batalhe para ser um homem santo, piedoso, moral e espiritual. Ele sentirá uma obrigação constante de servir e agradar Aquele de quem provém sua esperança. Ele dirá a si mesmo: “Como posso retribuir ao SENHOR toda a sua bondade para comigo?” Ele sentirá: “Eu fui comprado por alto preço. Deixe-me glorificar a Deus com corpo e espírito, que são dEle.”

 

Esta é uma questão de importância infinita em todas as eras. É uma verdade que é sempre atacada por Satanás, e que precisa ser vigiada com muito cuidado. Deixe-nos tomar posse dela firmemente e torná-la um princípio estabelecido em nossa religião. Se existe luz em uma casa, ela irá brilhar através das janelas. Se existe qualquer esperança real na alma de um homem, ela será vista em suas atitudes. Mostre-me sua esperança através de sua vida! Onde está ela? Onde é que ela aparece? Se não pode exibi-la, pode estar certo de que ela não é em nada melhor do que uma ilusão e uma armadilha.

 

Leitor, os tempos demandam um testemunho bastante distinto de todos os ministros a respeito desse tema. A verdade neste ponto requer uma fala muito clara. Estabeleça-a profundamente em suas mentes e estejam cuidadosos para não deixá-la partir. Não deixe nenhum homem iludi-lo com palavras vãs. “Aquele que pratica a justiça é justo.” “Aquele que afirma que permanece nele, deve andar como ele andou.” A esperança que não torna um homem honesto, honrado, verdadeiro, sóbrio, manso, bondoso e fiel em todas as relações de sua vida não é do alto. É apenas  “o só falar leva à pobreza.”. “Como nuvens e ventos sem chuva é aquele que se gaba de presentes que não deu.” (Provérbios 14.23 – 25.14.)

 

Há atualmente aqueles que se gabam por terem uma boa esperança, porque possuem conhecimento religioso. São familiarizados com a letra de suas Bíblias. Podem argumentar e debater sobre pontos da doutrina. Podem citar textos aos montes em defesa de suas próprias opiniões teológicas. São perfeitos Benjamitas em controvérsia, podem atirar pedras com precisão, sem errar. E, ainda assim, não têm nenhum fruto do Espírito, nenhuma caridade, nenhuma mansidão, ou gentileza, humildade. Nada daquilo que é próprio de Cristo. Essas pessoas possuem uma esperança? Deixe que pensem que sim, se quiserem, porém não ouso fazer tal afirmação. Concordo com Paulo: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor nada serei.” (1 Coríntios 13.1-2.)

 

Há ainda aqueles que presumem pensar que têm uma boa esperança, por causa da eleição eterna de Deus. Eles convencem a si mesmos de que foram chamados e escolhidos por Deus para a salvação. Estão certos de que houve um dia uma obra verdadeira do Espírito em seus corações e que tudo, portanto, deve estar bem. Menosprezam os demais, que receiam declarar tanto quanto eles. Parecem pensar: “somos o povo de Deus, – somos o templo do Senhor, – somos os servos favorecidos do Altíssimo, somos aqueles que irão reinar no paraíso, sem ninguém mais.” E, no entanto, essas mesmas pessoas podem mentir, trair e trapacear, e ser desonrosas! Alguns deles podem até mesmo se embriagar na intimidade e secretamente cometer pecados, dos quais é vergonhoso falar! E têm eles uma boa esperança? Deixe que assim pensem. Eu não posso. Deus proibe-me de fazer tal afirmação! A eleição que não está acompanhada da santificação não vem de Deus, mas do diabo. A esperança que não santifica um homem não é esperança nenhuma.

 

Há aquele, ainda, que fantasiam ter uma boa esperança, por gostarem de ouvir o Evangelho. Eles apreciam ouvir bons sermões. Percorrerão milhas para ouvir um pregador favorito. Eles até mesmo chorarão e serão afetados por suas palavras. Por verem-nos na igreja até podem pensar: “Certamente estes são discípulos de Cristo, certamente são excelentes Cristãos!” – Entretanto, essas mesmas pessoas podem mergulhar em toda sandice e alegria do mundo. Noite após noite elas podem ir com todo o seu coração à ópera, ao teatro ou a um baile. Elas serão vistas na pista de corridas. Eles estão à frente de cada festejo mundano[2]. Suas vozes no domingo são iguais às de Jacó, mas suas mãos nos dias de semana são as de Esaú. – E têm essas pessoas uma boa esperança? Não ouso dizer tal coisa. A esperança que não evita a conformidade com o mundo não é esperança nenhuma. “Todo o que é nascido de Deus vence o mundo.” (I João 5.4.)

 

Leitor, saiba que qualquer esperança que não exercita uma influência santificadora em seu coração, vida, gostos, conduta e conversação é uma esperança que nunca veio dos céus. É mera escória e moeda falsa. Precisa da autenticação da casa da moeda do Espírito Santo e nunca irá passar para o céu. O homem que tem uma esperança real, sem dúvida, pode ser surpreendido por um erro. Ele pode vir a tropeçar ocasionalmente em sua conduta, e ser atraído para fora do seu caminho correto por um tempo. Porém, o homem que pode autorizar a si mesmo a romper de forma obstinada e habitual a lei de Deus é corrompido de coração. Ele pode falar de sua esperança tanto quanto desejar, mas não tem nenhuma na verdade. Sua religião é uma alegria para o diabo, uma obstrução imprópria ao mundo, uma tristeza para os verdadeiros cristãos e uma ofensa a Deus. – Ah, se tal homem considerasse tais coisas! Ah, que tal homem fizesse uma oração como esta: “Do antinomismo[3] e da hipocrisia, bom Senhor, livre-me!”

 

Leitor, fiz o que propus que você fizesse. Mostrei as cinco marcas principais de uma boa e sã esperança. 1- É uma esperança que é capaz de ser explicada. 2- É uma esperança que é retirada da Escritura. 3- É uma esperança que é fundada em Cristo. 4- É uma esperança que é sentida no interior do coração. 5- É uma esperança que é manifestada externamente na vida. – Realmente creio que essa é a esperança de todos os verdadeiros cristãos, de todo nome, igreja, denominação, povo e língua. Tal é a esperança que você deve ter se deseja ir para o céu. Sem ela, creio firmemente que nenhum homem pode ser salvo. Essa é a “boa esperança através da graça.”

 

Permita-me agora aplicar o tema completo em sua consciência de uma forma prática. De que nos adianta, a mim e a você, saber verdades, a menos que as utilizemos? De que lhe servirá ver a real natureza de uma boa esperança, a menos que o tema seja trazido para sua própria alma? Isto é o que lhe proponho agora, se Deus permitir, no restante deste texto. Que o Espírito de Deus possa aplicar minhas palavras em seu coração com grandioso poder! O homem pode falar, pregar e escrever, mas apenas Deus pode converter.

 

  1. Minha primeira palavra será uma pergunta. Eu a faço a todos os que lêem este texto, e peço que cada leitor a responda. A pergunta é: “Qual é a sua própria esperança quanto à sua alma?”

 

Não faço essa pergunta por simples curiosidade. Eu a faço como um embaixador de Cristo, e um amigo de seus maiores interesses. Eu a faço para provocar um questionamento próprio, e promover o seu bem-estar espiritual. Pergunto: “Qual é a sua esperança quanto à sua alma?”

 

Não quero saber se vai ou não à igreja ou à capela. Não haverá nenhuma explicação sobre essas diferenças no céu. Não quero saber se você aprova ou não o Evangelho, e pensa ser muito correto e apropriado que as pessoas tenham sua religião e façam suas orações. Tudo isso é irrelevante. Essa não é a questão. Quero que pense no seguinte: “Qual é a sua esperança quanto à sua alma?”

 

Não importa nem um pouco o que seus familiares pensam. Não importa nem um pouco o que o resto da paróquia ou da cidade aprovam. As contas com Deus não serão prestadas por cidades, paróquias ou famílias. Cada um deverá se posicionar à frente separadamente e responder por si próprio. “Cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus.” (Romanos 14.12.) E qual a defesa que você deseja apresentar? Qual será a sua petição? “Qual a sua esperança quanto à sua alma?”

 

O tempo é curto e está passando rapidamente. Mais alguns anos e todos estaremos mortos e teremos partido. As árvores das quais as madeiras com que nossos caixões serão feitos talvez já estejam cortadas. Os tecidos que envolverão nossos corpos talvez já estejam prontos. É possível que as pás já estejam prontas para cavar nossos túmulos. A eternidade se aproxima. Não deveria haver nenhum desprezo por isso. Qual, pergunto-lhe, qual é sua esperança quanto à sua alma?

 

Outro mundo logo começará. Comércio, política, dinheiro, terras, casas de campo, palácios, comida, bebida, vestimenta, leitura, caça, tiroteios, desenhos, trabalho, dança, festas, logo tudo terá fim para sempre. Não restará nada além do céu para alguns, e inferno para outros. Qual é sua esperança quanto à sua alma?

 

Leitor, fiz minha pergunta. E agora, qual é sua resposta?

 

Muitos diriam, creio eu, se dissessem a verdade: “Não sei nada quanto a isso. Imagino que eu não seja aquilo que deveria ser. Ouso dizer que deveria ter mais religião do que tenho. Confio que terei mais algum dia. Mas quanto a qualquer esperança no presente, eu realmente não sei.”

 

Acredito muito que esse seja o estado de muitos. Tenho visto muita ignorância espiritual dos homens para me deixar cheio com grande tristeza. Estou convencido de que não exista nenhum erro ou heresia que esteja arruinando tantas almas como a heresia da ignorância. Estou certo de que existe um grande número de pessoas na Inglaterra que não conhecem nem ao menos o A.B.C. do cristianismo, e que não são nada melhores do que pagãos batizados. Ouvi a respeito de um homem que em seus últimos dias a única esperança era: “que ele sempre havia ido a sua igreja e votado nos Conservadores”. Ouvi falar sobre outro, para quem perguntaram em seu leito de morte para onde esperava ir, e ele disse que “esperava ir com a multidão.” Tenho poucas dúvidas de que haja milhares de pessoas neste país que estão em uma situação bem parecida, não sabendo nada acerca de seu estado diante de Deus. Leitor, se esse for o seu caso, apenas posso dizer: “Que Deus o converta! Que Deus acorde-o! Que Deus abra seus olhos antes que seja tarde demais!”

 

Olhe para aquele homem que vai ao Banco da Inglaterra no dia dos pagamentos e pede para receber uma quantia alta em dinheiro. O seu nome está na lista de pessoas a serem pagas? Não! Ele possui algum título ou direto de solicitar um pagamento? Não! Ele não possui nenhum. Ele apenas sabe que outras pessoas estão recebendo dinheiro e que ele desejaria receber um pouco também. Você diria que esse homem está fora de si. Diria que ele não é nada diferente de um homem maluco. Mas pare! Preste atenção no que está dizendo. Você é o real maluco, se deseja solicitar o paraíso ao final, quando não tem nenhum título, garantia, nenhum fundamento para apresentar. Mais uma vez eu digo: que Deus abra seus olhos!

 

Entretanto, muitos, creio eu, responderiam à minha pergunta dizendo que têm esperança. Diriam: “Não sou tão mal quanto alguns, de qualquer forma. Não sou nenhum pagão. Nenhum infiel. Tenho alguma esperança quanto à minha alma.”

 

Leitor, se for esse o seu caso, peço que considere calmamente qual é realmente sua esperança. Peço que não se contente em dizer, como um papagaio, “Eu espero, eu espero, eu espero”, mas que examine seriamente a natureza de sua confiança, e que certifique de que ela seja bem embasada. É uma esperança que você é capaz de explicar? É baseada nas Escrituras? É fundada em Cristo? É sentida em seu coração? É santificadora na sua vida? – Nem tudo o que reluz é ouro. Eu já o alertei de que existe uma falsa esperança assim como a verdadeira. Eu ofereço o aviso novamente. Imploro-lhe que considere para não ser enganado. Cuidado com os erros.

 

Existem navios silenciosos nas docas de Liverpool e Londres prestes a partir para todos os cantos do mundo. Todos eles parecem igualmente confiáveis, desde que estejam atracados. Todos possuem nomes igualmente bons e estão bem equipados e pintados. Mas eles não são todos igualmente bem fundados e igualmente seguros. Uma vez postos no mar e encontrados pelas águas agressivas, as diferenças entre os navios seguros e defeituosos logo aparecerão. Muitos navios que pareciam bem no porto provaram-se não confiáveis no mar: quando entraram nas águas profundas, afundaram de uma vez, com tudo a bordo! Assim também acontece com as falsas esperanças. Falham completamente quando mais se precisa delas. Naufragam e arruinam a alma de seu possuidor! Leitor, logo você deverá partir para o mar. Digo-lhe novamente: cuidado com os erros.

 

Deixo minha pergunta aqui. Honestamente oro para que Deus aplique-a em seus corações. Estou certo de que é preciso. Acredito que nunca houve um tempo com tanta religião falsa, e tantas “falsas esperanças” se passaram por verdadeiras. Nunca houve um tempo com tanta profissão grandiosa e tão pouca prática espiritual, tanta conversa espalhafatosa sobre pregadores, partidos, igrejas, e tão pouca caminhada com Deus e real trabalho do Espírito. Não há falta de botões florescentes no cristianismo, mas há uma escassez terrível de frutos maduros. Há uma abundância de teologias controversas, mas uma carência de santidade prática. Há milhares que têm um nome como de vivos, mas pouquíssimos cujos corações estejam realmente na obra de Cristo, poucos cujas afeições estejam realmente postos nas coisas do alto. Haverá alguns terríveis fracassos em muitas partes. Haverá ainda muitas revelações tenebrosas no último dia. Há muitas esperanças nos dias de hoje que são completamente destituídas de embasamento. Leitor, digo, pela última vez, cuidado com os erros.

 

  1. Minha segunda palavra será um pedido. Faço-o a todos os leitores que sentem que não possuem uma esperança e que desejam tê-la. É um simples e curto pedido. Peço-lhes que procurem uma boa esperança enquanto ela se pode achar.

 

Uma boa esperança está ao alcance de todos os homens, basta que desejem encontrá-la. É chamada enfaticamente nas Escrituras de “uma boa esperança através da graça.” Ela é oferecida livremente assim como foi livremente conquistada. Pode ser obtida livremente “sem dinheiro e sem preço.” Nosso passado não torna impossível que a conquistemos, não importa quão mal tenha sido. Nossa fraqueza e debilidade atuais não nos impedem, não importa o quanto sejam grandes. A mesma graça que forneceu à humanidade uma esperança, faz um convite livre, completo e ilimitado: “Quem quiser, receba de graça a água da vida.” – “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á.” (Apocalipse 22.17. Mateus 7.7.)

 

O Senhor Jesus Cristo pode e deseja dar “uma boa esperança” a todos aqueles que realmente a desejarem. Ele é selado e apontado por Deus Pai para dar o pão da vida a todos os famintos, a água da vida a todos os sedentos. Agradou ao Pai que nEle habitasse toda a plenitude. Nele há perdão, paz com Deus, trazidos pelo precioso sangue que Ele derramou naquela cruz. Nele há alegria e paz para qualquer crente, e uma expectativa sólida e bem embasada de que boas coisas estão por vir. Nele há descanso para o cansado, refúgio para o aflito, um fonte para o impuro, remédio para o doente, cura para o desolado e esperança para o perdido. Aquele que se sente sofredor e sobrecarregado com o pecado; aquele que se sente ansioso e estressado com sua alma; aquele que se sente com medo da morte e despreparado para morrer; quem quer que seja ele, deixe-o ir até Cristo. Esta é a coisa certa a ser feita. Esta é a forma a se seguir. Aquele que deseja esperança, deixe-o ir até Cristo.

 

Leitor, se você de fato deseja desfrutar uma boa esperança, procure-a no Senhor Jesus Cristo. Existe apoio para se fazer assim. Os tessalonicenses em um tempo antigo estavam, assim como os efésios, mortos em transgressões e pecados, não tendo qualquer esperança, e sem Deus neste mundo. Porém, quando Paulo pregou Jesus a eles, saíram de seu estado miserável e tornaram-se novas criaturas. Deus lhes deu uma “boa esperança através da graça”. A porta pela qual Manassés e Madalena entraram ainda está aberta. A fonte na qual Zacarias e Mateus foram lavados, ainda está disponível. Busque a esperança de Cristo e você irá encontrá-la.

 

Busque-a com honestidade e sem reservas. A ruína de muitos é que eles não são claros e francos. Dizem que “tentam o máximo que podem” e que realmente “desejam ser salvos” e que realmente “olham para Cristo.” Entretanto, no aposento de seu próprio coração existe um pecado amado ao qual eles se apegam secretamente e decidem não abrir mão dele. São como Agostinho, que disse: “Deus, converta-me mas não agora.” Procure honestamente se deseja encontrar uma boa esperança.

 

Procure em uma oração humilde. Derrame seu coração diante do Senhor Jesus e diga-lhe todas os desejos de sua alma. Faça como teria feito se vivesse na Galileia a mil e oitocentos anos atrás e tivesse lepra. Vá diretamente para Cristo e coloque diante dele suas preocupações. Diga-lhe que você é uma criatura pobre e pecadora, mas que ouviu falar que Ele é um Salvador gracioso e que você vem a Ele por esperança para sua alma. Diga-lhe que não tem nada que você possa dizer por si mesmo – nenhuma desculpa, nada para solicitar – mas que você ouviu que Ele “recebe os pecadores”, e por isso você vem a Ele.

 

Busque de uma vez sem demora. Não fique mais entre duas opiniões. Não demore mais um dia. Lance fora o resto de orgulho que ainda o mantém longe. Aproxime-se de Jesus como um pecador sobrecarregado, apegue-se à esperança à sua frente. Esse é o ponto ao qual todos irão chegar um dia se desejam ser salvos. Mais cedo ou mais tarde irão bater à porta da graça e pedir para serem admitidos. Por que não fazê-lo de uma vez? Por que continuar olhando para o pão da vida? Por que não vir à frente e comê-lo? Por que ficar fora da cidade de refúgio? Por que não adentrá-la e ser salvo? Por que não buscar a esperança de uma vez e não descansar até encontrá-la? Nunca uma alma buscou honestamente como estabelecido e falhou em encontrá-la.

 

Leitor, coloco meu pedido diante de você. Sei que merece atenção. Oro a Deus para que não seja em vão.

 

  1. Minha última palavra será um conselho. Eu o ofereço a todos os que realmente obtiveram uma “boa esperança através da graça.” Eu o ofereço a todos os que realmente estão se apegando a Cristo, caminhando no caminho estreito, liderados pelo Espírito Santo. Peço-lhes que aceitem o conselho daquele que espera que seja para vocês um “irmão e companhia no reino e paciência de Jesus Cristo.” Eu creio que este conselho seja bom e apropriado.

 

Se você possui uma boa esperança, seja zeloso e vigilante quanto a ela. Cuide para que Satanás não a roube por uma estação, como fez com Davi e Pedro. Cuidado para que não a perca de vista ao ceder a inconsistências ou por conformar-se com o mundo. Examine-a frequentemente e assegure-se de que ela não esteja perdendo o brilho. Mantenha-a iluminada cuidando diariamente de seu temperamento, pensamentos e palavras. Mantenha-a sadia com orações fortes, calorosas e contínuas. A esperança do cristão é uma planta muito delicada. Ela é uma planta exótica lá de cima. Não é uma planta de crescimento natural. Ela fica facilmente fria e destruída pela geada fria deste mundo. A menos que seja regada e cuidada com atenção, ela irá definhar e se reduzir a nada, e mal será sentida ou vista. Ninguém descobre isso de maneira tão dolorosa quanto os crentes em seus leitos de morte que não caminharam de perto com Deus. Descobrem que cultivaram espinhos em seus leitos de morte e que trouxeram nuvens entre eles e o sol.

 

Por outro lado, se você tem uma boa esperança, mantenha-a sempre pronta. Tenha-a na sua mão direita, preparada para uso imediato. Olhe para ela frequentemente e tenha certeza que está em boas condições. As tribulações muitas vezes surgem de repente, como um homem armado. Doenças e ferimentos em nossa estrutura mortal por vezes nos colocam em nossas camas, e sem qualquer aviso. Feliz aquele que mantém sua lâmpada em boa forma e que vive diariamente em comunhão com Cristo!

 

Você já viu um carro de bombeiros em uma velha cidade do interior? Você já percebeu com que frequência ele fica por meses em um galpão escuro, intocado, sujo e sem manutenção? As válvulas estão desreguladas. A mangueira de couro está cheia de buracos. As bombas estão enferrujadas e duras. Uma casa pode ser quase inteiramente queimada antes do carro dos bombeiros conseguir lançar um pequeno balde de água. No seu estado atual, é uma máquina praticamente inútil.

 

Você já viu um navio no porto de Portsmouth? O casco pode às vezes ser bom e profundo. A quilha e a borda, as madeiras e a vau e deques, podem ser tudo aquilo que você sempre desejou. Mas ele não é equipado ou suprido, ou armado ou pronto para o serviço. Seria preciso semanas e meses para fazê-lo ficar pronto para o mar. Em seu estado atual, ele não poderia ser de muita ajuda para a defesa do país.

 

Leitor, a esperança de muitos crentes é como o carro de bombeiros e aquele navio. Ela existe. Ela está viva. É real e verdadeira. Profunda. É boa. Veio do céu. Ela foi implantada pelo Espírito Santo. Mas, ah meu Deus, não está pronta para uso. Seu possuidor descobrirá isso por meio de seu desejo de alegria e conforto quando estiver à morte. Cuidado para que sua esperança não seja uma desse tipo. Se você tem uma esperança, mantenha-a pronta em sua mão.

 

Se você tem uma boa esperança, busque e ore para que ela possa crescer mais e mais a cada ano. Não se contente com um dia de pequenas coisas. Cobice os melhores presentes. Deseje desfrutar de uma segurança completa. Esforce-se para alcançar o padrão de Paulo e ser capaz de dizer: “Estou certo de que nem morte ou vida, poderão me separar do amor de Deus que está em Jesus Cristo.”

 

Acredite em mim, esta parte do meu conselho é algo que merece uma atenção especial. Acredite, tudo o que está à nossa frente porá nossa esperança à prova. Doença e morte são coisas importantes. Elas retiram todo o enfeite e tinta da religião de uma pessoa. Descobrem os pontos fracos de nosso cristianismo. Eles forçam nossa esperança ao máximo e muitas vezes nos fazem quase entrar em desespero. Cristão, em O Peregrino[4], teve uma provação difícil ao cruzar o rio gelado antes de entrar na cidade celestial. Fiel e verdadeiro como era, ainda assim gritou, “todos os seus vagalhões avançam sobre mim”, e teve de lutar e perseverar bastante para continuar sua caminhada. Que todos nós possamos guardar isso no coração. Que busquemos saber e sentir que somos um com Cristo e que Cristo está em nós. Aquele que tem esperança faz bem. Mas aquele que tem convicção disso faz melhor. Abençoados aqueles que “abundam na esperança pelo poder do Espírito Santo.” (Romanos 15.13.).

 

Finalmente, se tem uma boa esperança, seja grato por ela, e dê ao Senhor um louvor diário. Por que você aprendeu a sentir seu pecado e insignificância enquanto outros são ignorantes e se sentem justos? Por que você aprendeu a olhar para Jesus enquanto outros estão olhando para sua própria bondade ou descansando em uma mera formalidade? Por que você deseja e batalha para ser santo enquanto outros não se preocupam em nada além desse mundo? Por que é assim? Há apenas uma resposta: a graça, a graça, a livre graça fez tudo. Por isso louve a Deus. Por essa graça seja grato.

 

Continue rumo ao fim de sua jornada, “alegrando-se na esperança da glória de Deus”. Continue alegrando-se no pensamento, naquele pensamento de que é um pobre pecador, que Jesus é um Salvador muito gracioso e naquele pensamento de que você passa por provações aqui por um breve espaço de tempo e que o céu logo irá recompensar a nós todos.

 

Continue, vestindo a esperança como a um capacete, em todas as batalhas de sua vida, uma esperança de perdão, perseverança, absolvição no dia do julgamento, uma esperança de glória final. Vista a armadura da justiça. Coloque o escudo da fé. Amarre seus quadris com a verdade. Maneje corajosamente a espada do Espírito. Porém, nunca se esqueça de vestir o capacete da esperança. (1 Tessalonicenses 5.8.)

 

Continue, apesar da má índole do mundo, e não se comova com sua risada ou sua perseguição, suas calúnias ou escárnios. Conforte seu coração com o pensamento de que o tempo será curto, que boas coisas ainda estão para acontecer, a noite é passada, a manhã sem nuvens está à vista. Quando o homem mau morre, sua expectativa perece, mas sua expectativa não irá decepcioná-lo – a sua recompensa é garantida.

 

Continue e não fique abatido por estar perturbado por dúvidas e medos. Você ainda está no corpo. Este mundo não é seu descanso. O diabo o odeia por ter escapado dele e fará tudo o que puder para roubar sua paz. O próprio fato de que você tem paz é uma evidência de que você sente que tem algo a perder. O verdadeiro cristão pode discernir sua guerra tão bem quanto sua paz, e seus medos tanto quanto suas esperanças. Os barcos ancorados e Spithead podem balançar para frente e para trás com a maré e arfar muito no vendaval de sudeste. Mas contanto que suas âncoras estejam apegadas ao solo irão boiar com segurança e sem motivo para pânico. A esperança do verdadeiro cristão é a âncora de sua alma, segura e firme. (Hebreus 6.19.) Seu coração pode ser arremessado para todos os lados, mas está seguro em Cristo. As ondas podem balançar e levantá-lo para cima e para baixo, mas não será destruído.

 

Continue e “esperai inteiramente na graça que se vos oferece na revelação de Jesus Cristo.” (1 Pedro 1.13.) Mais algum tempo e a fé será transformada em visão e a esperança em certeza. Você verá assim como tem se visto e conhecerá assim como é conhecido. Mais alguns arremessos para frente e para trás no mar desse mundo; mais algumas batalhas e conflitos com seu inimigo espiritual; mais alguns anos de lágrimas e separações, de trabalho e sofrimento, de cruzes e cuidados, de desapontamentos e humilhações, e então estaremos em casa. As luzes do porto já estão à vista. O abrigo de descanso não está distante. Lá encontraremos tudo por que esperamos e descobriremos que era um milhão de vezes melhor do que nossas esperanças. Lá encontraremos todos os santos e nenhum pecado, mundo, dinheiro, doença, morte ou demônio. Lá, acima de tudo, encontraremos Jesus e estaremos com o Senhor! (1 Tessalonicenses 4.17.) Continuemos a ter esperança. Vale a pena carregar a cruz e seguir a Cristo. Deixe que o mundo zombe e ria, se quiser. Vale a pena ser um cristão decidido e por inteiro. Digo mais uma vez, continuemos a ter esperança.

 

Leitor, recomendo que preste atenção nisso. O desejo do meu coração para sua alma em 1857 pode ser expresso em algumas palavras. Se nunca teve uma boa esperança até hoje, que você possa encontrá-la este ano! Se você tem uma boa esperança, que neste ano possa tê-la em abundância!

 

Permaneço seu amigo no Evangelho,

 

HELMINGHAM

  1. C. Ryle

Dezembro de 1856.

 

 

ORE PARA QUE O ESPÍRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO DE PECADORES.

 

 

FONTE:

Traduzido de http://www.tracts.ukgo.com/ryle_what_is_your_hope.rtf

 

Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público.

 

Tradução: Beatriz Nosé

Revisão: Cibele Cardozo

Prova: Armando Marcos

Capa: Salvio Bhering

 

Projeto Castelo Forte

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SAIBA MAIS SOBRE J.C.RYLE EM:

Projeto Ryle – Anunciando a Verdade Evangélica

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[1]“Agora, enquanto fixava meu olhar em todas essas coisas, virei minha cabeça para olhar para trás, e vi a Ignorância subindo pela margem do rio: mas ele logo terminou, e isto sem metade da dificuldade que os outros dois homens encontraram. Pois aconteceu que havia naquele local uma Falsa Esperança, um barqueiro, que com seu barco o ajudou a subir: então, ele, assim como o outro que vi, subiu a colina para chegar ao portão, mas ele veio sozinho. Nenhum homem o encontrou com o menor do encorajamento. Quando ele chegou ao portão, “De onde você vem? E o que você tem?” Ele respondeu, “Eu comi e bebi na presença do Rei, e ele me ensinou o caminho.” Então eles lhe pedem seu certificado para mostrar ao Rei. Ele se atrapalha procurando um e não encontra. Então eles dizem: “Não tem nenhum?” Mas o homem não responde sequer uma palavra.

Assim, eles disseram ao Rei; mas ele não desceria para vê-lo e ordenou aos dois brilhantes, que conduzissem Cristão e Esperançoso até a Cidade, e que levassem Ignorância e amarrassem seus pés e mãos e o colocassem para fora. Então eles o chacoalharam e o levaram pelo ar até a porta que eu vi ao lado da colina, e o colocaram ali. E então vi que havia um caminho para o inferno, até mesmo do portão do paraíso, assim como para a cidade da destruição.” O Progresso do Peregrino – Bunyan.

 

[2] O leitor deve notar que esse tipo de eventos que Ryle cita eram caracteristicos de libertinagem e pecado nos dias vitorianos em que vivia, que hoje em dia podem não ser consideradas pecados, como ir ao teatro, por exemplo. O leitor pode aplicar outras situações na mesma categoria que Ryle indica (Nota do Projeto)

[3]Doutrina que prega o desprezo pela lei em nome da graça. Paulo em Romanos 6:1-2 rebate essa ideia de que o pecado pode ser praticado sem problemas por conta da graça. (Nota do Projeto)

[4] Alegoria escrita pelo puritano John Bunyan.

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