Igreja, Uma Comunidade Missionária – Bispo Rossello

capa rossello 1Sermão pregado no Domingo, 23 de Junho de 2013

Por Josep Rossello

Bispo Diocesano da Igreja Anglicana Reformada do Brasil,

Na Igreja Anglicana do Vale do Paraíba

Em São José dos Campos, São Paulo, Brasil

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Considero que os sofrimentos do presente não se podem comparar com a glória que será revelada em nós. Pois a criação aguarda ansiosamente a revelação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à inutilidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação seja libertada do cativeiro da degeneração, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda a criação geme e agoniza até agora, como se sofresse dores de parto; e não somente ela, mas também nós, que temos os primeiros frutos do Espírito, também gememos em nosso íntimo, aguardando ansiosamente nossa adoção, a redenção do nosso corpo. Romanos 8,18-23

Há duas semanas atrás, falei sobre a importância de pregar e anunciar o evangelho. Na semana passada falei da motivação correta para pregar e anunciar o evangelho. Tratei, também, sobre as motivações que devemos ter para estabelecer uma nova congregação anglicana que seja saudável e missionaria. Se um ponto de pregação não é saudável e missionário, então será quase impossível de crescer e sobreviver como congregação local. Hoje, desejo refletir sobre o que define uma comunidade missionaria como tal.

 Poucas pessoas tem sofrido tantas dificuldades e sofrimento, como Paulo (2 Cor 6,4-10; 11,23-28). Contudo, ele sempre considerou tais obstáculos de pouca importância comparado com a glória futura (2 Cor 4,17).

No texto de Romanos, Paulo escreve sobre a gloria que será revelada em nós. Ele está falando da gloria de Cristo, porque quando sejamos ressuscitados com Jesus, receberemos Sua gloria e seremos como Ele (1 João 3,2). Agora, em   nós que somos discípulos de Cristo e somos guiados pelo Espírito, está gloria já tem começado a ser revelada aqui na Terra (veja 2 Coríntios 3,18).

Sem duvida, uma das características pelas quais a gloria futura se faz visível no presente é através da Igreja de Cristo. Isto é possível porque a igreja é chamada a responder com uma resposta muito concreta a questão de porque estamos aqui e porque o universo existe nesta forma.

A própria natureza da Igreja faz que o mandato dela seja muito mais que levar pessoas ao céu, mas sim recriar a própria criação e formar uma nova sociedade no mundo. Por isso, o texto de hoje é relevante ao mandato da Igreja, lembrando que a criação geme, esperando a revelação dos filhos de Deus.

Os Cristãos possuem as respostas as questões finais, e as questões que nossa sociedade atual enfrenta. Esta semana vivemos no Brasil um momento histórico. Não sabemos, realmente, o que acontecerá a partir de agora. Muitas das reinvindicações requerem uma consideração digna aos problemas do povo brasileiro.

A comunidade missionaria traz esperança diante das aflições da vida e dos conflitos diários, sendo luz em meio da escuridão e sendo sal para a cura das nações.

COMO? Talvez, você pergunte.

 

  1. Não é um ‘evangelho de prosperidade’ ou um ‘evangelho de libertação’ o que Deus enviou a Igreja a anunciar as nações. O evangelho é do Reino de Deus, e este já começou ainda que sua perfeita plenitude somente será vista quando o Rei volte para tomar posse da Sua herança.

O Novo Testamento é consistente em descrevemos os tempos em que vivemos como o Fim dos Tempos e os Últimos Dias. Isto não quer dizer que amanhã o mundo vai acabar, mas que a Igreja vive pensando na volta de Cristo. A sociedade pós-moderna precisa entender do início ao fim. A violência das últimas duas semanas nas ruas de São Paulo e no Brasil tem mostrado a falta de proposito, significado, sentido e esperança entre os violentos. Assim, se vive sem esperança, proposito ou direção.

O Fim dos Tempos nos mostram o propósito de reunir todas as coisas em Cristo, por Cristo e para Cristo: criação, cultura, história, sociedade, igreja e os governos.

A comunidade cristã deve organizar sua vida ao redor dos valores do Reino de Deus. É a comunidade que celebra, demonstra, e desse modo, proclama a reunião de toda a criação no propósito de Deus revelado em Cristo. Exatamente está visão do Fim o que mostra a vivência da Presença do futuro no presente, e capacita da igreja em participar da missão de Deus no mundo, redimindo toda a criação.

A Igreja de Cristo tem sido instruída pelo próprio Senhor para instruir as nações a obedecer tudo aquilo que Jesus ensinou. Isto não tem sido obedecido pela igreja. A Igreja, como comunidade missionaria, tem um chamado a instruir, ensinar e formar os cristãos para que sejam verdadeiros agentes de transformação. Contudo, voltando a mesma premissa que falei a semana passada, como seremos capazes de fazer um discípulo, se nós mesmos não somos um discípulo. Em outras palavras, será que podemos ensinar todo o conselho de Deus, se nós mesmos não conhecemos o que Jesus ensinou.

A criação geme, a sociedade geme, o mundo geme, mas porquê? Porque estão degenerados. Estão na espera da revelação perfeita do evangelho que recrie a criação para ser uma nova criação. Enquanto isso, como igreja, devemos urgentemente proclamar o evangelho e instruir nossas famílias, amigos, bairros, cidades, estados e nações, nos ensinos e mandamentos de Deus até que Cristo volte de novo.

Nesse momento, “um novo céu e uma nova terra” serão formados diante de nós (Apocalipse 21,1-8). A Igreja é a Nova Jerusalém em formação até que esteja perfeita no fim dos tempos (Apocalipse 21,9-27). A comunidade missionaria vive a missão da Igreja na sua visão escatológica de vida eterna que começa aqui e agora na Terra.

 

II. Os Credos se colocam de forma primária e central quando percebemos que são muito mais que uma série de dogmas, mas é o todo da história. Neles encontramos a narrativa do proposito de Deus em termos de revelação, com o Alpha e o Ômega. Em outras palavras, Deus é tudo o que há e existe agora e sempre.

 O propósito de Deus Igreja para Sua dá significado e sentido de onde estamos vindo e a onde estamos indo. O propósito de Deus para Sua Igreja define o chamado a humanidade para participar do seu desígnio eterno de reunir todo em Cristo (Efésios 1,10; Colossenses 1,20; 1 Coríntios 15,28). Além disso, ser Cristão é estar em Cristo, e estar em Cristo requer participar da missão de Deus, como mediadores da presença de Deus no mundo (Lucas 3,22).

Tendo este entendimento definido, torna-se menos importantes os programas e atividades, e mais importante nos centramos na importância da Igreja como comunidade encarnada de Cristo. Só deste modo podemos levar adiante a missão de Deus, já que requer de nós viver o evangelho na sua total radicalidade onde estamos e vivemos. Anunciamos as boas novas aqueles que encontramos no caminho, como Jesus nos mostra nos evangelhos. Não precisamos mais de programas e campanhas para trazer as pessoas a Cristo, contudo existe um preço maior por nossa parte que requer viver o evangelho. Isto só é possível se restauramos um entendimento verdadeiro da espiritualidade cristã no coração da comunidade missionaria. Por espiritualidade, usarei a definição de Canon Robert Warrren, “a espiritualidade é nosso entendimento e experiência de como o encontro com Deus acontece e como tal encontro se sustenta.

A comunidade missionaria surge da espiritualidade que une a oração comum, a vida em comunidade e a missão de Deus para ajudar-nos a ser uma verdadeira comunidade missionaria.

III.  A comunidade missionária precisa ser profética. O evangelho trata essencialmente do que significa ser humano. As boas novas, como se observa na cultura, são que ser plenamente humano tem sido demostrado na sua plenitude na pessoa de Jesus Cristo, feito acessível para nos através da incorporação batismal na sua morte, ressureição, ascensão e, finalmente, nos dons do Espírito Santo, e, agora, se faz visível vivendo esta realidade na congregação local. A palavra profética para nossa cultura é sobre o que significa ser humano.

A comunidade missionária se faz assim uma verdadeira comunidade profética, através da evangelização, da pregação, do ensino, dos sacramentos, da adoração, do discipulado, da obediência e da vida plena. Isto leva a igreja a redescobrir a verdade que o evangelho trata sobre “ser humano,” sendo isso as boas novas para a nossa sociedade, e sendo elas que definirão a agenda e cultura, mais além do que nós como cristãos tem reconhecido. Deste modo, as palavras de São Irineu são ouvidas de novo, “a glória de Deus é um homem plenamente vivo.”

James Philip diz, “Salvação é, essencialmente considerada, a restauração da humanidade para o homem.” Por isso, a comunidade missionaria deve aprender aplicar o evangelho na sociedade onde se encontra estabelecida, participando da busca das ovelhas perdidas. Somente deste modo, a missão da igreja estará participando no proposito escatológico de Deus.

Muitas vozes tem sido ouvidas estes dias, contudo uma voz tem estado silenciosa quando mais precisava de ser ouvida. A igreja estava calada, ou sua voz está muito fraca em meio da multidão que levantava suas vozes. E, ao mesmo tempo, não basta levantar nossas vozes, se nossas palavras não apresentam o evangelho puro e simples de Jesus Cristo. De fato, pior que ficar calado, é ficar falando e promovendo valores contrários ao Reino de Deus.

O mundo precisa ver que Jesus Cristo é o Rei de Reis, e Senhor de Senhores. Isto não será uma realidade até que todas as nações se submetam a Ele através do batismo, aceitando a importância e responsabilidade de aprender tudo aquilo que Ele ensinou. Se nós, cristãos, aceitamos a premissa errônea que a fé Cristã é uma questão privada e individual, e não publica e social, então dificilmente poderemos cumprir nossa função profética. Os ensinos de Cristo e os mandamentos de Deus mostram o caminho nas mais diversas áreas, e em todas as áreas. Não em vão, a missão de Deus está ligada inevitavelmente a Grande Comissão a qual, por sua vez, envia a Igreja a discipular as nações até que elas venham a Cristo.

A ideia de que a Igreja precisa aceitar as premissas filosóficas e políticas como a melhor das possíveis soluções, não tem base nas Escrituras. Uma sociedade secular nunca poderá trazer a plenitude do que significa ser humano. Isto se faz real quando aceitamos que o Senhorio de Cristo tem autoridade em que cada área e esfera do ser humano. A nova criação se centra no fato de que Jesus Cristo tem demostrado o significado de ser humano na nossa sociedade, e nós devemos crescer nessa direção.

A comunidade missionaria vive a plenitude de ser humano, e resulta um centro de atração para que as pessoas cheguem a descobrir sua verdadeira humanidade em Cristo.

IV. Ser humano requer viver em comunidade. Em uma sociedade desconectada, a igreja é a rede que conecta as pessoas de novo umas com as outras e com Cristo. Esta é parte essencial de ser a Igreja de Cristo, e, somente, somos igreja, se somos juntos.

Até agora, falamos de ser comunidade missionária em quatro áreas: sofrimento, escatologia, espiritualidade e humanidade. Contudo, desejo terminar o mensagem de hoje falando do ponto mais obvio. Ser comunidade missionaria requer viver juntos em comum. Não adianta ter os quatro pontos anteriores, se depois não vivemos em comum.

Reconheço que esta é uma área na qual sou muito ruim. Ainda que sinto uma grande atração pela vida comunitária, tanto no sentido literal como espiritual. Talvez, por isso, desejo tomar um tempo para explorar este ponto.

Ser comunidade só é possível, se vivemos por uma série de valores diferenciais, os quais nos ajudem a cumprir a missão de Deus, sendo testemunhos na nossa sociedade. É impossível ser Igreja individualmente. A vida crista não foi desenhada para ser vivida e experimentada longe dos outros.

Ser uma verdadeira comunidade demanda construir relações honesta, verdadeiras, e abertas que estão fundamentadas no amor a Deus e no amor os uns pelos outros, além da sociedade individualista e a cultura consumista do nosso tempo.

Isto nos capacita para ser aquilo que Deus nos chamou a ser em Cristo. A própria comunidade é o agente que Deus escolheu para discernir o chamado e as vocações, e dar o selo de aprovação. Deste modo, esta visão comunitária se edifica em trabalhar juntos, cooperando sempre e ministrando, como corpo de Cristo.

A comunidade missionária tem sua maior expressão quando se reúne para celebrar a história redentora da humanidade. O culto dominical da Santa Comunhão renova a nova aliança eterna feita por Deus com Sua Igreja. Celebramos nossa humanidade que tem sido ensinada por Cristo. Vivemos seguindo os Seus passo, e entregamos a Deus os dons que temos recebido do Espírito Santo para que sejam usados para edificar a comunidade missionária e expandir o Reino de Deus.

Somente assim, “a igreja será o primeiro sinal daquilo que ela prega” (Michael Crosby). A comunidade missionária está chamada a ser o sinal visível do Reino de Deus, como nova criação, a cidade de Deus e a colônia do céu. Isto somente é possível se somos verdadeiramente uma comunidade.

 

V. Irmãos, as palavras de Lesslie Newbigin são hoje em dia mais relevantes que nunca, “a única hermenêutica do evangelho é uma congregação de homens e mulheres que acreditam Nele e vivem por Ele.”  Uma congregação missionaria é uma igreja que toma sua identidade, prioridades, e agenda da participação na missão de Deus no mundo e, especialmente, no seu bairro.

Ao único Deus Todo-poderoso, nosso Salvador, seja toda a glória e majestade, domínio e poder, agora e para sempre. Amém.

LEITURA DAS ESCRITURAS ANTES DO SERMÃO

Romanos 8.18-23 | Lucas 6.36-42.

 

ORE PARA QUE O ESPÍRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA TRAZER UM CONHECIMENTO SALVÍFICO DE JESUS CRISTO E PARA EDIFICAÇÃO DA IGREJA

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Sermão: Josep Rossello

Prova e revisão: Patrice dos Santos Rossello e Armando Marcos Pinto

Capa:  Armando Marcos Pinto

 

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