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O Evangelismo Trinitariano – Walter McAlister

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O que é evangelismo? Todo cristão tem uma ideia sobre o que seja o ato de evangelizar e sabe que essa é uma ação que devemos praticar. Agora, vamos refletir sobre a que de fato estamos nos referindo quando falamos sobre isso. Evangelizar é o ato de trazer alguém para a Igreja? É a afirmação pública de que somos cristãos? É a entrega de um panfleto na praia? O que é, afinal?

É fundamental que saibamos que evangelismo é essencialmente a explicação clara das boas-novas de Cristo: sua origem, sua obra e a esperança que podemos ter ao seguir Jesus nesta vida, com vistas à vida após a morte. Evangelismo não se resume a afirmar promessas de bem-estar, alegria temporal ou um sentimento de alívio pelo perdão dos pecados. Certamente, o perdão faz parte da mensagem. Mas não é o livramento do sentimento de culpa que a obra de Cristo nos proporciona. É muito mais do que isso. Tampouco evangelismo é um convite de adesão denominacional ou de incorporação a um movimento alavancado por alegria.

De onde vem a necessidade do evangelismo? Por que devemos admitir o proselitismo numa época tão antenada e movida pelo pluralismo moderno e o desconstrutivismo pós-moderno? Que absolutos podem nos mover a violar o espaço uns dos outros com uma mensagem que claramente fere a cartilha cívica e social dos nossos tempos? Afinal, dizem, todos os caminhos levariam a Deus. “Tudo é relativo”, segundo… bem, “todo mundo”.

Não, nem tudo é relativo.

Tudo o que existe — os céus, a terra, a humanidade — tem sua origem em Deus: Pai, Filho e Espírito Santo. Começamos pela afirmação da triunidade de Deus, porque é nessa identidade trina que achamos a essência das boas-novas. Ao contrário do que muitos disseram no passado, Deus não criou o homem porque estava solitário. Ele não criou o universo porque teve de fazê-lo. Deus é completo em si. Sua existência é absolutamente e infinitamente plena. Não há sombra em Deus. Não há lacunas em Deus. Não há um espaço que exista fora de Deus. Pois, se Ele é infinito e eterno, não há um lugar onde ele não esteja, nem tampouco um tempo no qual ele não habite. Fora do tempo, o próprio tempo é criação dele, segundo Agostinho explicou em Cidade de Deus. A esfera temporal faz parte de dimensões que nos definem. Mas não definem Deus. É impossível fazê-lo. Todavia, não quero me perder em devaneios especulativos. Vamos nos limitar ao que temos por revelação clara, nas Escrituras. Pois Deus foi condescendente ao fazer com que pudéssemos conhecê-lo, mesmo que em parte (1 Co 13.12).

Se Deus não teve de nos criar, a pergunta que exige ser feita é “então por que criou?” Por que Deus pronunciou o fiat, “Haja luz”? A resposta não pode ser achada num versículo-chave. É por meio do pleno conselho de Deus, ou seja, pelo testemunho pleno da Bíblia toda, que vemos que o Senhor agiu pela graça. Foi a graça de Deus, a sua prerrogativa divina, que o levou a criar céus e terra. Foi a sua decisão, antes do início do início, formar o homem a sua imagem e semelhança. Foi o seu ato trino, fruto da sua natureza única e, ao mesmo tempo, existente em três pessoas. Pois foi o próprio Cristo quem falou, na sua oração sacerdotal de João 17: “Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (v.3).

Deus mandou seu Filho. Mas o Filho “veio”, ele “se fez” carne (Jo 1.11). O Pai deu seu Filho para morrer em nosso lugar. Mas o Filho disse “eu dou a minha vida” (Jo 10.17).  O Espírito, igualmente, participa de tudo o que Pai e Filho fizeram. Assim como Deus criou o mundo, tudo foi feito por meio do Filho. Mas o Espírito pairava sobre as profundezas. Ninguém vem ao Pai senão por intermédio do Filho (Jo 14.6). Mas, quando o Filho ora, afirma que ele cuidou dos que lhe foram dados pelo Pai. Ao mesmo tempo, quem convence o pecador é o Espírito, que fala tudo o que recebe do Filho (Jo 16.8-13).

Um dos textos que revelam a Trindade em ação é o batismo de Jesus no rio Jordão (Mt 3.13-17). Para Agostinho, esse texto apresenta um problema. Pois sugere que haja três deuses. Todavia, ele resolve o impasse com uma explicação perfeita. Embora haja três modos de agir, há um só ato sendo praticado. Em outras palavras, enquanto o Filho desceu às águas, o Pai o reconhece e o Espírito desce sobre Ele. Não há como separar os três. Literalmente, em cada ação de um dos membros da Santíssima Trindade, os outros dois se fazem presentes e agem, de forma diferente, mas numa unidade de propósito.

Há quem ache que evangelismo tem de enfatizar o Pai somente. Fala-se muito de um Deus, em termos tão genéricos que recorremos à poesia para tentar explicar quem ele é, o que faria ou não. Para outros, a mensagem é o Filho somente. Afinal, “foi ele quem nos livrou da ira do Pai inacessível”, segundo eles. Já os pentecostais querem enfatizar o Espírito. Seu evangelismo é uma chamada para milagres, sinais e prodígios.

Mas para que pessoas venham a entender o que é a vida eterna, a vida espiritual e a esperança que a mensagem cristã nos proporciona, temos de abraçar a mensagem evangelística trina: o Pai criou (Gn 1.1), por meio do Filho criou (Hb 1.2), no poder do Espírito criou (Gn 1.2) — um só Deus criou. O Pai amou (Jo 3.16), por amor o Filho veio (Mt 23.37 e Jo 1.10,11) e esse amor é derramado nos nossos corações pelo Espírito (Rm 5.5). O Pai ofereceu o seu Filho como propiciação dos nossos pecados (1 Jo 410). Mas o Filho também se ofereceu como propiciação pelos nossos pecados (Hb 2.17). O Filho disse “destrua este templo e eu mesmo irei reerguê-lo em três dias” (Jo 2.19). Mas o que o Filho fez, fez no poder do Espírito Santo (Rm 8.11). O Pai nos chama, o Filho nos chama, o Espírito nos convence. Oramos para o Pai, em o nome do Filho, no poder do Espírito.

Fomos chamados para participar de uma comunhão sagrada. Essa comunhão compreende a nossa justificação pelo sangue. Mas redunda numa vida de santificação no Espírito, pela lavagem da Palavra (Jo 16.13; 17.17). Isso porque o nosso Pai no céu é santo (1 Pe 1.16).

Voltando à pergunta inicial: o que é evangelismo? Por que evangelizamos? Por causa da graça de Deus que opera em nós. Precisamos de mais membros? Não. Precisamos de um clube cristão maior? Não. Mas há muitos que ainda não o conhecem. De graça recebemos. De graça devemos dar também (1 Pe 5.5; Mt 10.8). Fomos amados pela graça, devemos amar de graça, também (1 Jo 4.10). Pois todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus (1 Jo 4.7,8). Ele nos instruiu a ir e falar Dele (Mc 16.15-18). Mas precisamos nos envolver com Ele: Pai, Filho e Espírito Santo. Por isso Jesus disse: “Vocês são testemunhas destas coisas. Eu lhe envio a promessa de meu Pai; mas fiquem na cidade até serem revestidos do poder do alto” (Lc 24.48-49). Sim, até para falar Dele precisamos Dele mesmo (Jo 15.1-5). Assim como a nossa mensagem é trinitariana, nossa missão também é. E, assim como a nossa missão é, o nosso método tem de ser. Não será na força da razão ou na excelência da nossa apologia que o Evangelho alcançará quem precisa ser salvo. Será no poder do Espírito, que revela o Filho e traz glória ao Pai.

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Walter McAlister é bispo primaz da Aliança das Igrejas Cristãs Nova Vida; http://www.icnv.com.br/icnv/pt/Default.aspx