A Intercessão dos Santos segundo o catolicismo romano e algumas breves refutações – Armando Marcos

por Armando Marcos 

 

A Intercessão dos Santos segundo o catolicismo romano e algumas breves refutações.

 

No último mês de maio de 2017 foram canonizados pelo Papa Francisco os pastorzinhos Francisco e Jacinta. Esses irmãos teriam recebidos revelações diretas de Nossa Senhora no povoado de Fátima, Portugal, em 1917, e por meio da intercessão feita para eles, realizaram milagres após a morte, o que levou à canonização.  Segundo a igreja Católica romana, a partir de agora eles alcançaram as “honras dos altares”, podem ser lembrados na liturgia da missa e os cristãos podem rogar para que eles intercedam pelos vivos diante de Deus por Cristo. Isso tudo na linguagem mais culta, pois no catolicismo popular os dois agora fazem parte do grupo de santos intercessores, mas eficazes que o próprio Jesus, aparentemente.

 

A Igreja Católica Romana explica a situação nesse termos “A Igreja Católica sempre acreditou que desde os primeiros tempos do cristianismo os Apóstolos e os Mártires em Cristo estão unidos a nós mais estreitamente, venerou-os particularmente juntamente com a bem-aventurada Virgem Maria e os Santos Anjos, e implorou devotamente o auxílio da sua intercessão. A eles se uniram também outros que imitaram mais de perto a virgindade e a pobreza de Cristo e além disso aqueles cujo preclaro exercício das virtudes cristãs e dos carismas divinos suscitaram a devoção e a imitação dos fiéis[1]. Isso foi escrito pelo hoje São João Paulo II na Constituição Divinus perfectionis Magister, e mostra claramente o ensino oficial. Podemos identificar nessa frase algumas bases de autoridade que a Igreja Romana usa, como a tradição, mas esse não será nosso alvo nesse artigo. Nesse artigo já partimos do pressuposto que a Igreja Católica Romana está colocando a Tradição acima da autoridade exclusiva da Escritura[2].

 

O artigo 22° dos 39 Artigos de religião da Igreja da Inglaterra rebate isso assim “A doutrina romana relativa ao Purgatório, Indulgências, Veneração e Adoração tanto de imagens como de relíquias, e também à invocação dos Santos, é uma coisa fútil e vãmente inventada, que não se funda em testemunho algum da Escritura, mas ao contrário repugna à Palavra de Deus[3]. Concordo com a afirmativa anglicana aqui, mas não nos estenderemos em todos os casos nesse artigo sobre o assunto. Nesse artigo iremos focar o aspecto da invocação dos santos e tentar mostrar biblicamente alguns pontos da doutrina da exclusiva intercessão de Cristo e do Espirito Santo e mostrar como a Igreja Católica Romana coloca adendos a isso por sua doutrina embaralhada.

 

Em primeiro lugar, a Bíblia chama TODOS os crentes de santos “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus (Efésios 1:1). O Catolicismo romano, no entanto, cria uma divisão entre santos comuns e santos espetaculares. Ela considera que certas pessoas (em especial Maria) tem direitos maiores à veneração por conta de sua maior santidade ou feitos heroicos, como no caso dos mártires. Evidentemente esse ponto seria um ponto pacífico e sem importância se ele ficasse restrito a ideia de exemplo do santo e de se maravilhar pelas misericórdias de Deus na vida de, e através de, certas pessoas. Mas a Igreja Católica Romana erra drasticamente quando justifica que os cristãos vivos possam rogar aos cristão já mortos para que esses intercedam por nós em glória por conta justamente desses excedentes de santidade, por assim dizer[4].

 

Para evitar o erro católico romano, devemos nos precaver de levar essa distinção de santidade que citei anteriormente além da medida do saudável. Podemos ter respeito por alguém cristão, e seguir seu exemplo de vida e fé, como somos exortados em Hebreus 11, mas devemos lembrar que a santidade dos crentes na prática não é perfeita nessa vida, tanto que temos a ordem de “ como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; 1 Pedro 1:15” mas diante dos olhos de Deus o crente é santificado, separado, por Ele mesmo em Cristo. Isso porém, não dá aos santos já em Cristo na gloria, privilégios intercessores pelos vivos.

 

A EXCLUSIVIDADE DA INTERCESSÃO DE CRISTO E DO ESPÍRITO

 

Em segundo, a Palavra diz claramente sobre a intercessão na glória como sendo de exclusividade do Filho e do Espírito. Isso já deveria ser algo que bastasse para se evitar o erro de se imaginar que algum dentre os santos pudesse compartilhar desses privilégios.

 

E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos. Romanos 8:27

 

Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós. Romanos 8:34

 

Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles. Hebreus 7:25

 

Mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. Romanos 8:26

O ÚNICO HOMEM que tem autorização para interceder diante de Deus “do lado de lá” pelos vivos é Jesus

 

Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem. 1 Timóteo 2:5

Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus; Hebreus 9:24

 

APOCALIPSE COMO BASE

 

Os únicos casos de intercessão entre homens são de vivos e vivos, quando um ora pelo outro:

 

Orai uns pelos outros, para que sareis. A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos. Tiago 5:16

 

Irmãos, orai por nós. 1 Tessalonicenses 5:25

 

Bendizei os que vos maldizem, e orai pelos que vos caluniam. Lucas 6:28

 

E isso mesmo as vezes poderia ser ineficaz, como diz

 

Ainda que Noé, Daniel e Jó estivessem no meio dela, vivo eu, diz o Senhor DEUS, que nem um filho nem uma filha eles livrariam, mas somente eles livrariam as suas próprias almas pela sua justiça. Ezequiel 14:20

 

A teoria de que a igreja vitoriosa ora pela militante as vezes é baseada em Apocalipse, por conta disso: havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram. E clamavam com grande voz, dizendo: Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? E foram dadas a cada um compridas vestes brancas e foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seus conservos e seus irmãos, que haviam de ser mortos como eles foram.

Apocalipse 6:9-11

 

MAS notem, eles oram ” Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas O NOSSO SANGUE dos que habitam sobre a terra? Nessa oração eles oram POR ELES MESMOS. Eles são informados sobre o tempo da vingança do sangue deles quando a igreja toda esteja reunida, por assim dizer. MAS MESMO ASSIM é incoerente com isso basear uma doutrina toda, ainda mais considerando toda simbologia de Apocalipse.

 

O ENSINO DA IGREJA CATÓLICA ROMANA

 

O que ensina a igreja católica romana sobre o caso? Usaremos o Catecismo da Igreja Católica disponível no site em português do Vaticano para analisar

 

O Catecismo da igreja católica diz assim:

  1. A intercessão dos santos. «Os bem-aventurados, estando mais intimamente unidos com Cristo, consolidam mais firmemente a Igreja na santidade […].Eles não cessam de interceder a nosso favor, diante do Pai, apresentando os méritos que na terra alcançaram, graças ao Mediador único entre Deus e os homens, Jesus Cristo […]. A nossa fraqueza é assim grandemente ajudada pela sua solicitude fraterna» (516):

«Não choreis, que eu vos serei mais útil depois da morte e vos ajudarei mais eficazmente que durante a vida» (515).

«Quero passar o meu céu a fazer o bem sobre a terra» (518)[5]

 

Nesse ponto da intercessão, o Catecismo usa na citação 515 uma frase de São Domingos e na citação 518 uma frase de Santa Teresinha, testemunhos humanos que não provam a  doutrina por si só . JÁ a citação 516 é de um documento do Concilio Vaticano II, a CONSTITUIÇÃO DOGMÁTICA LUMEN GENTIUM SOBRE A IGREJA; vejamos que diz:

 

  1. Reconhecendo claramente esta comunicação de todo o Corpo místico de Cristo, a Igreja dos que ainda peregrinam, cultivou com muita piedade desde os primeiros tempos do Cristianismo a memória dos defuntos (151) e, «porque é coisa santa e salutar rezar pelos mortos, para que sejam absolvidos de seus pecados» (2 Mac. 12,46), por eles ofereceu também sufrágios. Mas, os apóstolos e mártires de Cristo que, derramando o próprio sangue, deram o supremo testemunho de fé e de caridade, sempre a Igreja acreditou estarem mais ligados connosco em Cristo, os venerou com particular afecto, juntamente com a Bem-aventurada Virgem Maria e os santos Anjos (152) e implorou o auxílio da sua intercessão. Aos quais bem depressa foram associados outros, que mais de perto imitaram a virgindade e pobreza de Cristo (153) e, finalmente, outros, cuja perfeição nas virtudes cristãs (154) e os carismas divinos recomendavam à piedosa devoção dos fiéis (155)[6]

 

NOTEM, em primeiro lugar, a citação de 2 Macabeus, que é um considerado pelos protestantes como apócrifo, que é usada como uma base para o ensino[7]. Isso é um exemplo do motivo de que os protestantes alegam que os livros apócrifos presentes nas Bíblias católicas são  usados  para justificar esse tipo de ideia e doutrina. Também interessante notar Interessante notar que na Torá (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) não vemos base para o que foi narrado em Macabeus.

Ainda vale ressaltar que 2 Macabeus 15.37-39 diz:

“Assim se desenrolaram os acontecimentos relativos a Nicanor, e já que a partir dessa época Jerusalém permaneceu em poder dos hebreus, finalizarei aqui minha narração. Se ela está felizmente concebida e ordenada, era este o meu desejo; se ela está imperfeita e medíocre, é que não pude fazer melhor. Assim como é nocivo beber somente o vinho ou somente a água, mas agradável e verdadeiramente proveitoso beber a água e o vinho misturados, assim também a disposição agradável do relato é o que causa prazer aos ouvidos do leitor. Aqui, pois, termino.”

Esta passagem mostra a incerteza do escritor quanto se o conteúdo estava bom portanto o mesmo não colocava o valor de canônico para a mesma. Podemos basear um ensino para toda igreja em todo mundo em um texto que seu proprio autor considera que pode estar imperfeito?

Além disso, a base católica é mostrada claramente nessa parte da Lume Gentium. Os santos e Maria são alvos de apelações por conta de suas virtudes. Logo se vê que a graça de Deus somente em Cristo é diminuída e que à intercessão de Cristo e do Espirito Santo são incluídos adendos não autorizados pela Escritura, ao menos se você considerar os apócrifos como regra de fé e a tradição como autoridade interpretativa.

 

MAIS ADIANTE, a Lumem Gentium diz: É, portanto, muito justo que amemos estes amigos e co-herdeiros de Jesus Cristo, nossos irmãos e grandes benfeitores, que dêmos a Deus, por eles, as devidas graças (159), «lhes dirijamos as nossas súplicas e recorramos às suas orações, ajuda e patrocínio, para obter de Deus os benefícios, por Seu Filho Jesus Cristo, Nosso Senhor e Redentor e Salvador único» (160) Porque todo o genuíno testemunho de veneração que prestamos aos santos, tende e leva, por sua mesma natureza, a Cristo, que é a «coroa de todos os santos» (161) e, por Ele, a Deus, que é admirável nos seus santos e neles é glorificado (162).

 

A citação 160 utilizada na Lumen Gentium vem do Concilio de Trento, que foi um Concilio convocado justamente para combater a Reforma Protestante em suas doutrinas e práticas. Essa citação é uma clara demonstração de como que a igreja católica romana acrescentou coisas à prática da igreja que são ilegítimas e graves erros a fé simples em Jesus Cristo. Aliás, o próprio Concilio de Trento assevera: “São ímpios os que negam que se devam invocar os santos, que gozam já da eterna felicidade no céu. Os que afirmam que eles não oram pelos homens, os que declaram que este pedido por cada um de nós é idolatria, repugna a palavra de Deus e se opõe a honra de Jesus Cristo, o único mediador entre Deus e os homens“.[8] Essa afirmação foi feita claramente em contrário ao ensino protestante, e mostra bem como a igreja católica romana considera quem não concorda com esse ensino.

 

Os católicos romanos normalmente acusam os protestantes de negarem com sua refutação a oração intercessora de cristãos já falecidos a oração coletiva um dos outros na igreja. O problema não é esse, de fato, e sim o desvio das orações para intercessores e santos em glória, coisa que não é legitimada de qualquer forma, muito menos considerando os “créditos que eles acumularam em vida” para igreja. Os créditos que devemos usufruir são os de Cristo por sua morte na cruz e ressurreição, e para usufruir deles e de suas consequências, o crente é levado a confiar na intercessão de Cristo com a ajuda do Espírito Santo, algo mais que suficiente para todas nossas necessidades em vida e depois da morte também.

 

[1] http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_constitutions/documents/hf_jp-ii_apc_25011983_divinus-perfectionis-magister.html

[2] Doutrina chamada de “Sola Scriptura” pela Reforma Protestante

[3] http://igrejaanglicana.com.br/os-39-artigos/

[4] Apelam também para ideia de que toda a igreja, tanto a militante como a triunfante, mantem comunhão. O erro aqui é considerar que a igreja esteja em seus dois estados com alguma comunhão possível, comunhão essa que só ocorrerá plenamente entre ela nos novos céus e nova terra.

[5] http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2cap3_683-1065_po.html

[6] http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html

[7] Etimologicamente, o termo “apócrifo” significa: “oculto”, “escondido”. É usado para designar os 14 ou 15 livros, ou partes de livros que, em algum tempo, foram colocados entre os livros do Velho e do Novo Testamento. Eles aparecem anexados nas versões Septuaginta e Vulgata Latina. Para os protestantes “apócrifo” designa o conjunto de livros ou porções de livros que não fazia parte do cânon (lista de livros inspirados) hebraico. (FONTE http://biblia.com.br/perguntas-biblicas/biblia/o-que-sao-e-porque-os-livros-apocrifos-nao-estao-em-todas-as-bibliascd/ )

[8] https://formacao.cancaonova.com/igreja/doutrina/os-santos-intercedem-mesmo-por-nos/

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