A Dupla Natureza e o Duelo Interior – Spurgeon

capa 2A Dupla Natureza e o Duelo Interior

Sermão pregado por

Charles Haddon Spurgeon

No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres

Sem data

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“Mas vejo nos meus membros outra lei, que batalha contra a lei do meu entendimento, e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros.” Romanos 7:23

Pergunto-me se há alguém que entenda a si mesmo, mesmo que eu esteja completamente seguro que nenhum cristão pode fazê-lo. Em mais de um sentido “Grande é o mistério da piedade“. O crente é um grande enigma para os que o observam: “ele não é julgado por ninguém.” É igualmente um enigma para si mesmo. Não é surpreendente a frequência com que aparecem livros como “Paradoxos Ortodoxos” de Venning, e o “Enigma do Crente” do bom Ralph Erskine, pois se poderiam elaborar mil enigmas sobre o cristão, já que ele é um paradoxo do princípio ao fim. Assim como Platão insistia em dizer que cada indivíduo era duas pessoas, assim podemos dizer enfaticamente sobre cada cristão que ele é dois homens em um só. Com frequência, para ele mesmo, o homem mau em seu interior parece prevalecer, mas, apesar disso, pela graça de Deus não pode conseguir isso jamais, pois a vitória definitiva pertence à nova vida espiritual do cristão. Em cada cristão se adverte o que foi visto na sulamita em Cantares, “algo como a reunião dos acampamentos.” O cristão nem sempre sabe disso quando começa sua nova vida. Quando começa, sabe que é um pecador e que Jesus é seu Salvador, mas conforme ele avança, descobre que é mais pecador do que pensava.  

Muitas surpresas o aguardam e algumas outras coisas que, se não estivesse preparado para elas, deixá-lo-iam pasmo como se algo estranho estivesse lhe acontecendo. Pode ser que meu discurso sobre esse tema possa evitar que algum novo convertido se veja surpreendido por conflitos inesperados, e talvez isso o ajude a resolver esta pergunta que surgirá em sua mente, “seria possível que isso acontecesse comigo, se eu fosse um filho de Deus?”

Nosso primeiro tópico será “existem dois princípios em todos os crentes”. O apóstolo fala da lei de sua mente, e logo de outra lei em seus membros que se rebela contra a lei da sua mente. O convertido é um novo homem em Cristo Jesus, mas a velha natureza segue estando no seu interior.

Em ordem cronológica, a primeira vida de um cristão é a natureza do velho Adão. Ela está ali desde o princípio. Nasce da carne e com a carne, e segue em nós depois que nascemos do Espírito, pois o segundo nascimento não destrói em nós os produtos do primeiro nascimento. A regeneração enxerta em nós um novo e mais elevado princípio que há de destruir, finalmente, a natureza pecaminosa, mas o velho princípio ainda permanece e se esforça para manter seu poder. Alguns supõem que a mente carnal será melhorada, que será gradualmente amansada e santificada, mas ela é inimiga de Deus e não está reconciliada com Deus, e na verdade é impossível que isso aconteça. A velha natureza é da terra, terrena, e tem que ser crucificada com Cristo e sepultada com Ele, já que é, em suma, muito má para que possa ser medicada. Essa velha natureza vive em nossos membros, quer dizer, o corpo é seu ninho, e trabalha por meio do corpo. Há certos apetites em nós que são perfeitamente permissíveis, e mais, que são inclusive necessários para a existência; mas esses apetites podem ser levados muito facilmente a extremos pecaminosos, e então, o que é legal e reto se converte em um ninho do que é ilegal e indevido. É algo louvável que um homem busque prover para seu próprio lar. No entanto, quantos crimes e quanta cobiça entram no mundo por culpa de uma indulgência desordenada por esse desejo. Um indivíduo pode comer e beber, e, contudo, é por meio desses apetites que muitos pecados são iniciados. Quando se encontra em sua condição correta, o homem coloca um freio na boca de seus desejos e os sujeita como se estivesse com um cabresto; sua natureza superior governa seus apetites corporais, mas não sem um grande esforço, pois desde a queda de Adão, a máquina trabalha sempre irregularmente, e não é controlada apropriadamente pelo que deveria ser sua força governante.

Tenho me inteirado de alguns que professam sonhar com que o pecado esteja completamente destruído dentro deles, e que já não tenham mais tendências perversas nem desejos maus. Não vou contradizer sua crença. Se for assim, parabéns a eles, e digo que desejaria grandemente que acontecesse o mesmo comigo. No entanto, tenho certa experiência com essa gente perfeita e geralmente me parecem as pessoas mais desagradáveis, vaidosas e insensíveis do mundo, e algumas delas têm se tornado hipócritas tão detestáveis, que por fim dá-me medo gente que não tenha nenhuma imperfeição. Assim que tão prontamente me dou conta de que um irmão declara que viveu sem pecado durante longos meses, pergunto-me se seu vício secreto é a concupiscência, ou o roubo, ou a bebida, mas estou seguro de que em uma ou outra parte existe um furo no barco.

O pecado que mora na carne será debilitado na medida em que se fortalece o santo princípio do qual devo falar, e não deve ser tolerado ou isento em nenhum momento, mas devemos lutar contra ele, e vencê-lo, e finalmente haverá de ser destruído em nós, por completo; no entanto, ele está ali, e o jovem cristão não deve ficar perplexo ao encontrá-lo ali.

Quando nascemos de novo, chega à nossa alma a semente viva e incorruptível da palavra de Deus que vive e permanece para sempre. Assemelha-se à natureza divina e não pode pecar porque é nascida de Deus; não tem nenhuma tendência a pecar, e todos os seus apetites estão orientados ao céu e a Cristo. Nunca se rebaixa da sua elevada posição; sempre está aspirando ao céu. Tem uma inimizade mortal com a velha natureza, a quem irá destruir, mas, como já disse antes, tem uma tarefa a cumprir, e é uma tarefa que, ainda com o auxílio da força divina, não será cumprida de imediato. É uma guerra que quando parece concluída, tem que ser retomada com frequência, já que depois de largas e vitoriosas campanhas, o inimigo derrotado volta ao campo de batalha.

Quisera eu agora que cada cristão tivesse a certeza de que tem dentro de si este segundo princípio. Pode ser débil, pode estar lutando para existir, mas ali está, meu irmão. Se você já creu em Jesus, você tem uma vida que odeia o pecado e que o conduz ao arrependimento quando cai nele. Essa é a vida que clama “Abba, Pai” quantas vezes pensa em Deus, é a vida que aspira à santidade e que se deleita na lei de Deus. Este é o princípio nascido de novo que não lhe permitirá estar em paz se acaso cair em pecado, que não encontra descanso exceto quando recostado sobre o peito desse Deus de quem veio.

Estes são dois princípios que constituem o homem dual: a carne e o espírito, a lei da mente e a lei do pecado, o corpo de morte e o espírito de vida.

Notamos, em segundo lugar, que A EXISTÊNCIA DESTES DOIS PRINCÍPIOS EM UM CRISTÃO O OBRIGA A UM CONFLITO, tal como diz o texto: “Outra lei em meus membros, que se rebela contra a lei da minha mente.” Em nós, o leão não se deitará com a ovelha, o fogo não estará de bem com a água, a morte não conversará com a vida, nem Cristo com Belial. A vida dupla provoca um duelo cotidiano.

Não estou seguro de que todos os jovens cristãos sintam a princípio o conflito entre a nova e a velha natureza. A vida cristã pode ser dividida com frequência em três etapas: o primeiro período é o do CONSOLO, em que o novo cristão se reconcilia com o Senhor, e seu principal ofício é cantar e anunciar o que Deus fez por ele.

Quando mais se experimentar disso, melhor. Depois, muito de repente vem a etapa do CONFLITO: em vez de sermos filhos dentro do lar,  transformamo-nos em homens, e portanto, devemos ir para a guerra. Debaixo da antiga lei, quando um homem tomava para si uma esposa ou edificava uma nova casa, estava livre de combater por um tempo, mas quando esse tempo acabava, devia tomar seu lugar nas filas de combatentes. O mesmo acontece com o filho de Deus: ele pode descansar por um tempo, mas está destinado para a guerra.  O período conflituoso se segue, e especialmente na velhice, há uma terceira etapa que poderíamos chamar de CONTEMPLAÇÃO, em que o crente passa a meditar na bondade do Senhor para com ele, e em todas as coisas boas que lhe estão reservadas. Esta é a terra de Beula, que John Bunyan descreve como localizada nas margens do rio, e tão próxima à Cidade Celestial que se pode ouvir a música do céu do outro lado da torrente, e quando o vento sopra desse ponto, podem-se sentir os doces perfumes dos jardins dos bem- aventurados. Esta é uma etapa que não devemos esperar nesse momento. Meu jovem amigo, na medida em que você seja débil e tenro no começo, pode ser que agrade ao Senhor protegê-lo das muitas tentações e das rebeliões da sua carne, mas as probabilidades são que, antes que passe muito tempo, você largue a sua harpa e tome sua espada, e a alegria do seu espírito dará lugar à agonia do conflito. O pecado está em você, alojado em lugares secretos, ainda que não haja saltado sobre você como um leão sobre sua presa.

Talvez você tenha pensado: “vou me sair melhor do que aqueles que vieram antes de mim; eu vou resplandecer como um santo brilhante”; ‘não seja louvado o que levanta as armas, como o que as abaixa.’ Lutas o esperam, e vejo-o sobre elas, de maneira que quando passar do estado de contentamento para o estado de conflito, possa confessar: “Antes que isso acontecesse, fui avisado disso, e, portanto, estou preparado.” A razão da luta é esta: a nova natureza entra em nosso coração para governá-lo, mas a mente carnal não está disposta a abrir mão do seu poder. Um novo trono é instaurado no coração, e o velho monarca, destronado, deposto e obrigado a assentar-se em algum canto, diz: “Não vou tolerar isso. Por que haveria de ser? Eu, que uma vez fui rei deste homem, fui deposto e obrigado a me esconder como se fosse um estranho. Vou recuperar o trono.” Vocês sabem que o mestre Bunyan, em sua “Guerra Santa”, que é uma alegoria admirável, descreve de que a cidade de AlmaHumana é arrebatada de Diabolo. Porém, depois que a cidade foi tomada, nos cantos e becos dessa cidade se escondiam como uma armadilha, certos súditos do Diabolo que sempre estavam tramando e planejando para ver como poderiam recuperar a cidade,  seja abrindo as portas na noite para deixar entrar seu antigo rei, ou espalhando o descontentamento entre os habitantes. Essa é a razão para a eterna contenda no interior de nossas almas. As velhas concupiscências estão proscritas e permanecem sob maldição, e corremos atrás de crucificá-las, mas elas se esforçam para recuperar o domínio. A carne vai esperar até que esteja em um estado mental muito apático e se sinta muito seguro, e então se lançará sobre você com as suas fascinações perversas. Pode também haver um momento em que você passe por um grave problema, e você se sinta a ponto de sucumbir, e então o Diabo vem sobre você como um leão que ruge, esperando destruir sua fé. Ele sabe como programar a tentação, e a carne sabe como levantar-se em rebelião quando estamos descuidados e quando as circunstâncias que nos rodeiam conduzem ao pecado. Não podemos vigiar demais, pois a carne se rebelará em um momento inesperado. Podemos derrubá-la e pensar que conseguimos vencê-la, mas ah, ela libera suas mãos, rompe suas cadeias e dispara uma flecha em nosso coração. Você dizia: “nunca irei irar-me”, e enquanto se alegrava pela doçura do seu caráter, foi provocado rapidamente por alguém, e a sua ira o incendiou imediatamente. “Não”, disse, “já não serei mais impaciente,”, e, contudo, poucos instantes depois, você estava tão cheio de murmuração como sempre esteve na vida. Enquanto a carne não descansar na cova, o pecado não estará morto.

E permita-me advertir-lhes que a carne poderá ser mais danosa do que nunca quando parecer que não está fazendo dano nenhum em absoluto. Durante a guerra, os soldados e os mineiros que trabalham nas partes subterrâneas de uma cidade, e os que estão em seu interior dizem: “o inimigo está muito tranquilo; não ouvimos nenhum rugido de canhão, e não vemos nenhuma captura de habitantes de Malakoff. O que o inimigo pretende”? Eles conhecem seu ofício suficientemente bem, e estão colocando suas minas para dar golpes inesperados. Por isso, um velho teólogo costumava dizer que ele não tinha tanto medo de “algum” diabo como de “nenhum” diabo. Que dizer, quando Satanás não tenta, dizer isso é a pior tentação. Deixar alguém “em paz” tende a produzir uma putrefação seca na alma. “Sobre seu sedimento, repousou, e não foi derramado de vaso em vaso,” disse o profeta na antiguidade, e isso o disse com respeito a alguém que estava sob o furor divino. O estancamento é uma das piores coisas que poderia acontecer conosco, e então, acontece que não estamos seguros nunca.

Assim, queridos amigos, tenho lhes mostrado que há um conflito no interior, e permitam-me felicitá-los se é que há um conflito. Os ímpios não conhecem essa guerra interna. Eles pecam, e amam pecar, mas a graça de Deus está presente aí onde há um conflito espiritual. Nós efetivamente pecamos, mas odiamos o pecado; caímos em pecado, mas o odiamos e lutamos contra ele, e todo verdadeiro filho de Deus pode dizer honestamente que não há nada neste mundo que tema tanto como entristecer a seu Deus. Se estivesse morto no pecado, não teria nenhum problema a respeito, mas essas pontadas internas de remorso, essas profundas emoções, esses amargos suspiros e clamores, esse grito de “miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”, todas essas coisas falam de uma vida espiritual. Se bem conheço sua aflição, o parabenizo por senti-la, pois isso é um dos sinais que indicam um filho de Deus. Não esqueça de que nos homens regenerados há duas forças que se opõem e que o obrigam a uma guerra vitalícia.

E, terceiro lugar, temos que notar agora que essa guerra nos leva algumas vezes ao cativeiro. Observem, “vejo outra lei em meus membros, que se rebela contra a lei de minha mente, e que me leva cativo à lei do pecado que está em meus membros.” “O que dizer disso?”, alguém dirá. Quer dizer que se um filho de Deus peca, isso será um cativeiro para tal pessoa. O pecador pode encontrar prazer no pecado, mas você não, se é que você é um filho de Deus. Se você caísse em pecado, seria como um escravo, encarcerado em um calabouço horrível. Mas, acaso a velha natureza sujeita aos cristãos a um cativeiro? Sim, da seguinte maneira: primeiro, um cristão já se sente cativo só pelo fato da velha natureza se levantar em seu interior. Permita-me explicar. Suponha que a velha natureza lhe sugira algum pecado: você odeia o pecado e o aborrece, e se deprecia por estar exposto a ser tentado dessa maneira. O simples feito de que tal pensamento tenha passado pela sua mente é um vislumbre para o seu espírito puro. Não cai no pecado, sacode a serpente, porém, sente sobre sua alma sua viscosa substância. Não sabe que o que é ter um impulso muito violento até um mal cujo simples pensamento é detestável para você? Sua mente regenerada exclama: “Como, pois, eu realizaria este grande mal, e pecaria contra Deus?” Mas ainda assim a carne diz: “Faça-o, faça-o, faça-o!”, e retrata sua doçura e seu prazer. Com toda a sua alma, você enfrenta a tentação. Um suor frio brota na sua testa diante do simples pensamento de cair em uma transgressão tão imunda, e clama a Deus em oração; mas, contudo, o cativeiro da sua alma é grande enquanto dura a prova e até mesmo por causa de sua simples lembrança. Você diz: “Temo ter flertado com a tentação. A isca não teria sido tão atrativa para mim se não tivesse algum consentimento de minha alma quanto a ela.”

 Também, você acusa o seu coração de loucura, dizendo: “Se bem que não cometi esse pecado, tive um desejo para dele.” Ainda que outros não pudessem o condenar, e na verdade deveriam honrar sua abnegação, contudo, você se condena por qualquer grau de inclinação em direção equivocada e sente que a tentação o levou imediatamente ao cativeiro. Que diferença há entre uma mancha sobre uma coisa e uma mancha sobre outra coisa distinta? Alguém mancha com tinta a minha casa, mas ninguém percebe a mancha; mas se derramassem uma gota de tinta neste pano branco, prontamente todos a veriam. A velha natureza é como uma casa preta, muito escura para mostrar uma mancha; mas a mancha que vem de uma tentação que cai sobre o fino linho branco da nova natureza nos atormenta muito; vemo-la, ficamos aborrecidos com ela, clamamos a Deus para que nos livre dela. O simples trânsito da tentação através de uma alma regenerada a leva ao cativeiro.

Um dia, estando em Roma, fiquei olhando uma grande fotografia muito bem tirada de uma rua e de um templo antigo. Nunca havia visto uma fotografia tão excelente, mas notei que por todo o centro da fotografia havia um rastro de uma mula e de uma carroça. O artista fez tudo o que pode para tapar isso, mas ali estava o fantasma da carroça e da mula por todo o centro do quadro. Não digo que isso tenha arruinado a fotografia, mas certamente não ajudava para que ficasse mais bonita. Igualmente, muitas vezes quando nosso coração está mais limpo e mostra melhor a imagem de Deus, por todo espaço do lindo quadro aparece o rastro de uma tentação, e nos afligimos. Um observador novato em matéria de arte poderia deixar de advertir a marca sobre a fotografia, mas um artista cuidadoso com um elevado ideal, sofre ao ver sua obra desfigurada dessa maneira. O mesmo acontece com as manchas morais: o que o homem comum opina que é uma trivialidade, na verdade é uma grande aflição para o filho de Deus de coração limpo, razão pela qual ele é levado ao cativeiro.

Às vezes, o cativeiro de um cristão consiste na perda da sua alegria devido à rebelião da carne. Digo algo que estou seguro que muitos dos filhos de Deus que estão presentes conhecem. Vocês estão regozijando no Senhor e triunfam em Seu nome, mas pouco a pouco alguma corrupção luta para alcançar o domínio. “Não se levantará,” você diz. Você a derruba, mas ela se esforça e você também se esforça, e na luta parece que a alegria do Senhor, que era sua força, é tirada. Um terrível sentimento o atormenta, o da presença da lepra na casa de barro em que você vive, e você está tão ansioso por eliminar a lepra das paredes que preferiria ver que a velha casa desmorona, virando pó, ao invés de viver onde o mal está tão próximo de você. Este espetáculo do pecado engrenado no seu interior é uma influência deprimente para a sua alegria. Quer cantar as maravilhas de Deus, mas a tentação vem justamente nesse instante, e tem que combatê-la, e o canto cede seu lugar ao grito de batalha. É tempo de orar e você está em uma atitude de devoção, mas de alguma maneira, você não pode controlar seus pensamentos; andam vagando por aqui e por ali, sob o domínio da carne. Meus pensamentos se assemelham com frequência a cavalos desbocados que destroçam irrestritamente os campos da minha alma. Na santa contemplação, você trata de concentrar seus pensamentos em um só assunto, mas não consegue. Muito provavelmente alguém bate à porta nesse mesmo momento, ou uma criança começa a gritar, ou um homem começa a tocar um órgão debaixo da sua janela, e, como é possível meditar? Todas as coisas parecem estar contra você. Coisinhas externas que são amenidades para outros, comprovam ser terríveis perturbações para o seu espírito, e o que faz com que outros sorriam, faz você chorar, pois a carne se agarrará às preocupações mais mesquinhas para impedir que você entre em comunhão com o Senhor seu Deus. Desta maneira, ao arrebatar nossa alegria e nossa comunhão, a velha corrupção no nosso interior nos conduz ao cativeiro.

Mas ah, irmãos, isso não é tudo, pois nem sempre escapamos do pecado real. Em momentos de esquecimento, fazemos o que gostaríamos de desfazer com todo gosto, e dizemos o que gostaríamos de desdizer com a nossa vontade. O espírito está disposto a ser perfeito, mas a carne é débil, e então a consequência para um filho de Deus é que se sente cativo. Cedeu aos traiçoeiros, e agora, como a Sansão, suas tranças foram-lhe cortadas. Sai para liberar-se como fazia antes, mas os filisteus estão sobre ele, seu Deus não está com ele e seria algo feliz se não perdesse seus olhos e não chegasse a moer no moinho como um escravo. Oh, quanta necessidade temos de vigiar e buscar a força no forte, pois esta velha natureza em nosso interior nos levaria ao cativeiro se pudesse, e nos reteria lá.

Mas tenho que concluir com uma reflexão: que ESTA GUERRA E ESTE TRIUNFO OCASIONAL DA CARNE FAZEM COM QUE PONHAMOS O OLHAR EM CRISTO PARA A VITÓRIA. O apóstolo pergunta: “Quem me livrará do corpo desta morte?” E sua resposta é: “Graças dou a Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor.” Irmãos e irmãs, estou convencido de que não há nenhum lugar tão seguro, tão apropriado e adequado para qualquer de nós, quanto o lugar de um pecador ao pé da cruz. Li muito sobre a perfeição na carne e tentei obtê-la. Tentei também orar da maneira que suponho que um homem perfeito oraria, mas a teoria não resistiria a um exame crítico no que concerne a mim. Quando subi ao templo dessa maneira, tentei orar, encontrei um fariseu muito perto de mim. A uma distância muito grande vi um pobre pecador batendo em seu peito e dizendo: “Deus, sê propício a mim, pecador,” e percebi que ele se retirou justificado enquanto eu seguia ali e o invejava. Não pude suportá-lo, e voltei a meu antigo lugar a seu lado, dei golpes em meu peito expressando o velho clamor: “Deus, sê propício a mim, pecador.” Então, eu também me senti tranquilo e voltei a minha casa justificado e regozijando-me no Senhor.

Amados, sempre que há um debate entre o diabo e eu, com respeito se sou um filho de Deus, tenho renunciado a buscar evidências em meu próprio favor ou a recorrer a minha experiência para demonstrar que estou em um estado de graça, pois esse astuto e velho advogado sabe mais de minhas debilidades do que eu, e muito pronto pode me superar com seus argumentos. Minha atitude constante é dizer ao acusador: “Bem, se não sou santo, sou um pecador, e Jesus veio ao mundo para salvar aos pecadores, portanto, vou a Cristo, e vou olhar para Ele novamente.” O diabo mesmo não pode responder a isso. Vocês que são os de maior idade na vida divina – e falo alguns que têm conhecido ao Senhor durante os últimos cinquenta anos – estou seguro de que encontram momentos em que nenhuma marca, evidência ou experiência vale um centavo para vocês como fonte de consolo, e vocês são conduzidos a adotar o simples recurso que recomendei a todos os que são tentados: será sábio viver de Jesus, sempre. Comecem de novo ao pé da cruz, de onde começaram ao princípio, com o velho clamor –

“Nada em minhas mãos trago,

Simplesmente à Tua cruz me apego.”

Essa é a maneira de vencer o pecado assim como também de dominar o desespero, pois, quando a fé em Jesus regressar à sua alma, será forte para lutar contra as suas corrupções e obterá a vitória que nunca alcançaria se permitisse que suas lutas com seus pecados o distanciassem do seu salvador.  Recorramos então, a Cristo que nos dá a vitória, e enquanto mais vivemos, mais temos de louvar a Cristo.

Vocês, novos na fé, não sabem ainda quão valioso Salvador encontraram. Vocês sabem que O encontraram, mas Ele é um Cristo maior do que o que vocês pensam que Ele é. Vocês estavam nus, e Ele os vestiu; sim, Ele nos vestiu com a armadura que repelirá os dardos do nosso arquinimigo. Vocês estavam famintos e Ele os alimentou; sim, mas Ele os alimentou com pão imortal e está nutrindo uma vida divina no interior de suas almas. Ele lhes tem dado a paz, e vocês estão agradecidos por isso; sim, mas Ele tem dado uma paz que excede todo o entendimento e que guardará os seus corações e suas mentes. Vocês dizem que é doce ter a Cristo consigo. Sim, o é, mas, quão doce será tê-lo consigo quando passar pelo fogo e não se queime, quando passar pelas águas e essas não o afogarem, quando entrar no combate final e você não tiver medo. Oh, amados, podemos descobrir mais de nossas carências, e seguramente o faremos, mas vamos descobrir mais da plenitude de Cristo, que nos basta. A tormenta voltará, ainda mais terrível, mas o poder do timão para governar essa tormenta só se fará mais patente. O barco pode mover-se de um lado para outro até que toda a madeira esteja a ponto de romper e partir o barco em dois, mas –

“Ele o preservará, Ele o governa

Ainda que o barco cambaleie mais.

As tormentas são o triunfo da Sua arte.”

Ele levará a Sua gente de maneira segura através do vociferante deserto e da terra seca. Não tenham medo, vocês que começaram a peregrinação divina, pois Sua coluna de fogo os acompanhará. É certo que há dragões, mas com a espada do Espírito, ferirão ao dragão assim como ele foi ferido no Mar Vermelho na antiguidade. Haverão de lutar com a morte, mas Cristo morreu e vocês sairão vitoriosos sobre o túmulo. Esperem o conflito; não se surpreendam quando ele chegar, mas com a mesma confiança, esperem a vitória e anunciem-na antecipadamente. Tão certamente como o Senhor os chamou a essa guerra celestial, Ele os sustentará durante ela. Vocês cantarão do outro lado do Jordão àquele que os amou e os lavou de seus pecados em Seu sangue. Cantarão os louvores a Deus e do Cordeiro no porto seguro dos bem-aventurados, na terra de lá, na habitação dos santos, onde descansam os cansados.

Quisera Deus que este sermão tivesse alguma relação com todos aqueles que o ouvirem ou o lerem, mas temo que não seja assim. Que Deus os conceda que não fiquem tranquilos no pecado, pois estar em paz com o pecado é dormir a caminho do inferno. Que Deus os desperte, para que possam acudir apressadamente para Cristo em busca de misericórdia nesse mesmo instante, e haverá gozo em Sua presença. Amém.

Trecho da Escritura lido antes do sermão – Romanos 7. 


 

ORE PARA QUE O ESPÍRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA TRAZER UM CONHECIMENTO SALVÍFICO DE JESUS CRISTO E PARA EDIFICAÇÃO DA IGREJA

FONTE

Traduzido de http://www.spurgeon.com.mx/sermon1459b.html

Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público e com permissão de Allan Roman do espanhol.

 

Sermão nº 1459B—Volume 35 do The Metropolitan Tabernacle Pulpit,

Tradução: Ana Luiza Rei

Revisão: Cibele Cardozo

 

ESSE SERMÃO É UMA PUBLICAÇÃO DE:

Projeto Castelo Forte – Divulgando o Evangelho do SENHOR.

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